Não se pode dizer que o Diabo e o cinema tenham sido combinação das mais inspiradas, ainda que abundante ao longo da história das imagens luminosas em movimento. O cinema gerou pouquíssimas obras que fizessem justiça ao engenho e à arte demoníacos. Subtemas recorrentes foram o ancestral pacto mefistofélico, os cultos satânicos, os rituais de feitiçaria - enfim, incursões mais ou menos periféricas. Compreensível, de certa maneira, a cerimônia de cineastas diante de tão perturbador personagem. Duplo risco: enveredar pelos meandros da digressão metafísica ou resvalar perigosamente para o horror explícito e desprovido de sutilezas. Na primeira vertente, uma coleção de títulos, alguns mais nobres, outros nem tanto. E no segundo segmento, um filme que se destaca pelo risco escancaradamente assumido: ‘‘O Exorcista’’, de William Friedkin, realizado em 1973.
Extremamente controvertido há 25 anos, ‘‘O Exorcista’’ provocou não apenas intermináveis filas diante dos cinemas de todo o mundo e calafrios na espinha de platéias fascinadas diante do endiabrado Satanás. Causou ainda intensos debates entre boa parte da crítica, considerável parcela do clero e infindável contingente de parapsicólogos, ateus, crentes, incrédulos, tementes, zombeteiros e curiosos de todos os quilates. O filme, baseado no romance de William Peter Blatty - que levou 40% de toda a bilheteria e se tornou o escritor mais rico de todos os tempos - conta a história da menina Regan (Linda Blair), de 12 anos, transformada subitamente no horrendo habitat por excelência do Demonio de Pazuzu, segundo diagnóstico de Padre Merrin (Max von Sydow), um especialista sempre de plantão, disposto tanto a usar fé e orações como a partir para sangrentas vias de fato com o inimigo atroz. E é o que realmente ocorre durante o ritual de exorcismo proposto pelo filme.
Não se pode negar à realização um certo charme em sua narrativa tipo montanha russa, que segue num crescendo de estripulias 99% por cento físicas e 1% metafísicas. A capacidade de manipulação da audiência ainda hoje é indiscutível. Entre suas habilidades do diretor, está a convivência harmoniosa entre a desagradável explicitude à base de efeitos especiais hoje risíveis - a transformação física de Regan, com jatos de vômito verde e companhia - e a utilização da velha e eficiente atmosfera de horror.
Pena que o filme falhe na tentativa de ir fundo nos personagens, todos com perfis psicológicos promissores. Inegável, como contribuição de roteiro para uma discussão que infelizmente ‘‘O Exorcista’’ não leva adiante, é a proposta de se colocar uma garota doce e inocente como receptáculo da possessão diabólica, o que conduz o brutal contraste inocência-perversão a extremos quase insuportáveis.
E neste tempo de frenesi que antece ao Oscar, não é demais lembrar que ‘‘O Exorcista’’ concorreu em dez categorias, levando os prêmios de melhor roteiro adaptado e melhor som. Até 1993, o filme fazia parte da privilegiada lista das 20 maiores bilheterias de todos os tempos.Horror na telaCena de ‘‘O Exorcista’’: filme teve uma das maiores bilheterias de todos os tempos ao mostrar possessão da garota ReganCarlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha

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