O exemplo de Terezinha
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de julho de 2009
Wilhan Santin<br> Reportagem Local 
Apucarana Quando dona Terezinha Ravazzi Santos ocupar a carteira para a primeira aula como universitária do curso de Pedagogia, no próximo dia 3 de agosto, ela estará a apenas cinco dias de comemorar aniversário e assoprar as velas dos seus 79 anos de vida. Com um jeito simples, porém muito articulado de conversar, ela não conseguiu esconder que estava encabulada ao receber a reportagem da FOLHA em sua casa em Apucarana (Norte). Sabe o que é, filho, não quero que pensem que eu quero me aparecer, foi tratando de dizer. No entanto, quando deixou a timidez de lado e soltou o verbo para contar a sua história, a estudante que acaba de ser aprovada no vestibular soltou palavras que ecoam como boas lições de força de vontade.
Filha de um artista plástico italiano e de uma estilista espanhola, fora educada de forma refinada, concluindo em bom colégio da cidade de Castro (Campos Gerais) o Ensino Fundamental. Depois recebeu todas as lições para ser uma boa esposa e dona de casa, aprendendo bordado e piano, como era conveniente a uma moça de família das décadas de 1940 e 1950. Naquele tempo, mulher não tinha que ter muito estudo, tinha que aprender a ser boa esposa, rememora.
De fato, ela se tornou uma boa esposa, mãe de quatro filhos e avó de quatro netos. Até hoje troca mimos com o marido, Luiz Santos, 82, com quem se casou há 56 anos depois de se apaixonar à primeira vista. Aconteceu que a prendada moça de família da Capital do Paraná foi a Apucarana, que ainda era toda de ruas de terra para visitar uma amiga. Em um baile, ficou encantada com o rapaz elegante e de porte atlético. Luiz também não conseguia desgrudar os olhos da linda moça de cabelos loiros. Não tive dúvidas, era ele.
Mas, mesmo casada e com a vida estabilizada, Terezinha sempre cultivou a vontade de estudar. Até que a intenção foi para a prática e, aos 75 anos, ela se matriculou em um curso supletivo para fazer o Ensino Médio. Encarou a Matemática disciplina com a qual travou boas batalhas e deslizou pela Química e pela Física. Mergulhou nos livros e pagou professor particular para ser aprovada pelos seus próprios méritos. Queria o diploma, mas só depois de ter aprendido de verdade, explica.
Com o diploma do colegial nas mãos não titubeou, era a hora da faculdade. Eu queria Fisioterapia, mas tenho consciência que a minha idade não me permitiria exercer a profissão da melhor maneira. Então, optei por Pedagogia, pois sei que é uma ciência que vai me permitir transmitir conhecimento depois de formada.
Mas antes era preciso encarar o vestiba. A primeira experiência não foi boa: reprovada. Terezinha esbarrava na redação, não por não ter bom texto, mas pelas mãos trêmulas que tornam suas letras ilegíveis. Não desistiu. Correu atrás e convenceu o pessoal da Faculdade Apucarana Cidade Educação (Faced) a lhe aplicar a prova de redação de forma oral. Foi aprovada.
Agora, aguarda ansiosa o início das aulas e já se prepara para aprender a lidar com o computador e a Internet, fundamentais para qualquer universitário de hoje em dia. E os planos futuros vão longe. Se Deus me der vida, quero fazer pós-graduação, mestrado, doutorado e, quem sabe, até escrever um livro, empolga-se.
Mas por que tudo isso, dona Terezinha? Encarar livros, quatro anos de aulas noturnas, provas, trabalhos? Quero manter a minha cabeça boa, ser independente. Os idosos não podem deixar a cabeça parada, pois isso leva a problemas. Também me move o desejo de ensinar, de transmitir conhecimentos. Amo meus semelhantes e ensinar é uma forma de demonstrar amor. Tudo o que faço é com muita sinceridade e espero cumprir com os meus objetivos, finaliza a futura universitária.


