O espelho ainda é o mesmo
Osmani Costa
No início, registram os livros de história, foram os colonizadores portugueses quem hipnotizaram com seus mágicos espelhinhos os ingênuos nativos brasileiros. Em troca dos pequenos pedaços de vidros encantados nos quais podiam ver pela primeira vez suas caras-pintadas , os indígenas davam aos descobridores suas árvores, terras e pedras preciosas.
Passados quase 500 anos, os índios fazem parte de uma nação em extinção. E os avanços industriais banalizaram o espelho, juntamente com outros produtos inventados pelo homem branco. No Camelódromo de Londrina, o estudante se deixa iludir pelo reflexo dos óculos de grife francesa comprado em uma fábrica de fundo de quintal no Paraguai.
O vendedor descendente de africanos também subjugados durante séculos pelos pioneiros lusos esforça-se para empurrar por alguns reais, no neto de europeus, um produto importado que poderia custar muitos dólares no país de origem. Como que encantado pelo que vê no espelho, ou talvez porque só disponha mesmo de pouco dinheiro, o estudante fica com os óculos.
Em que será que pensa o comprador de tão útil adorno pessoal? Talvez em se tornar mais atraente para a namorada, ou nas férias que se aproximam e passará na praia sob a tortura dos cancerígenos raios solares. O Camelódromo é um espaço de muitos, diferentes e mágicos sonhos.
Dezenas de vendedores ex-profissionais com carteira assinada realizam, na dura labuta diária, o sonho de fugir do desemprego crônico e se tornar donos de seu próprio negócio. Ex-sacoleiros, de viagens semanais ao país do tererê, e ex-camelôs perseguidos pelos funcionários do fisco e da prefeitura, agora eles são respeitáveis microempresários e pagam religiosamente seus impostos.
Os clientes são os mais variados, principalmente nesta época em que se aproximam as festas natalinas. Vai do humilde operário em busca de um radinho de pilha, para ouvir o futebol nas noites de quarta-feira, ao novo-rico que procura o legítimo uisque escocês 12 anos dez de Paraguai e dois de Camelódromo para o revéillon mais importante da sua vida. Há também CDs piratas e cigarro brasileiro importado, mais barato que no boteco da esquina. Tudo tem que ser mesmo a preços módicos, que a crise anda braba.
Olhando assim pelo retrovisor do espelhinho das praias baianas ao Camelódromo londrinense , fica a impressão de que o globalizado país tupiniquim não evoluiu muito.





