O esconderijo que se perdeu
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de agosto de 2002
Phoenix Finardi<BR>Reportagem Local 
Tinoco entrou no escritório esbaforido e ainda era manhã de segunda-feira. Foi abrindo as gavetas da escrivaninha, folheando as páginas da lista telefônica e apalpando a parte de cima dos armários. Uma das colegas de trabalho resolveu ajudar: ''O que você está procurando?'' Tinoco tirou o lenço, enxugou o princípio da careca e soltou: ''Meus R$ 25,00.'' ''Você perdeu dinheiro aqui no serviço?'', indagou a colega, já preocupada. ''Não sei, pode ser que sim, pode ser que não. Tecnicamente falando, pode ser mais que não do que sim.''
Tinoco era assim mesmo, tão explícito que às vezes confundia todo mundo. Para entendê-lo direito era preciso se acostumar ao jeito peculiar do ''catarina''. Aos poucos, enquanto ajudava na busca, a colega foi juntando os pedaços da história.
Tinoco era homem previdente, andava sempre com algum dinheiro no bolso: ''Nunca se sabe ou não se pode saber o que pode acontecer'', explicava (ou confundia!). Acontece que a mulher de Tinoco logo descobriu a mania e passou a tirar proveito. Volta e meia Tinoco enfiava a mão no bolso e...cadê o dinheiro? Em vez de discutir com a mulher, Tinoco declarou guerra fria: trocou de esconderijo. Em vez do bolso, passou a dobrar o dinheiro e esconder dentro do lenço. Não adiantou. Dias depois, quando desdobrou o lenço para pagar um café no Calçadão, Tinoco sentiu um arrepio na espinha os trocados tinham sumido.
Comentou o assunto com um amigo e ouviu um conselho lugar de dinheiro é na carteira. Arrumou uma carteira novinha e enfiou dentro o resto do salário 3 notas de R$ 10,00. ''Alegria de pobre dura pouco'', esbravejou naquele mesmo dia, à tarde. A mulher já tinha descoberto a nova ''fonte de divisas'' e a carteira parecia nova outra vez estava completamente vazia.
Decidido a ''vencer ou morrer'', Tinoco teve uma idéia radical: separou R$ 25,00 e guardou embaixo do tapete do carro. ''Era mesmo prá abastecer'', justificou. Parecia ter dado certo; dois dias depois o dinheiro continuava lá. Mas Tinoco começou a ficar incomodado com aquilo porque, ''se o dinheiro ficava lá, eu não ficava com ele, entende?''
Mais precavido do que nunca, Tinoco resolveu usar um outro esconderijo mais à mão e aí é que a coisa ''degringolou'': ''Eu escondi num lugar tão danado de bom que agora nem eu consigo mais achar'', confessou. O carro está sem combustível, estacionado numa rua do centro. Se alguém achar R$ 25,00 embrulhados num volante de Megasena sem jogo feito pode ter certeza: é o dinheiro do Tinoco! Ele mesmo diz que não precisa devolver, mas faz um pedido: ''Pelo amor de Deus, quem achou me diga onde é que eu tinha escondido.''


