‘‘O enviado do diabo’’
Os adeptos da seita costumam chamá-lo de ‘‘o enviado’’. Mais exatamente ‘‘enviado do diabo’’. Este título foi concedido ao juiz de Direito da Comarca de Bonito, Alexandre Antunes da Silva, por um dos principais representantes de Moon no Mato Grosso do Sul, o reverendo Cezar Zaduski, diretor da Fazenda Nova Esperança. Zaduski é o principal protagonista de um programa que Associação das Famílias para a Unificação e Paz Mundial mantém, uma vez por semana, na emissora de rádio de Jardim, para difundir as idéias de Moon. Em 96, referindo-se ao juiz, Zaduski disse: ‘‘Deus faz sua obra e o diabo manda um enviado para desfazer’’.
A obra a que Zaduski se referia são as instalações da Fazenda Nova Esperança, onde convivem milhares de seguidores de Moon. Em 96, quando atuava como juiz substituto em Jardim, o juiz mandou interditar a Fazenda e remover todos os milhares de turistas estrangeiros e brasileiros que se encontravam naquele momento na Fazenda. O juiz estava apenas acatando denúncia oferecida pelo promotor do Meio Ambiente da Comarca, Rogério Augusto Calábria de Araújo, que pedia a interdição por causa da falta de sistema de tratamento de esgoto nas instalações.
Três meses antes da interdição, a fossa onde eram lançados os dejetos de cerca de mil pessoas que se hospedavam diariamente na fazenda havia se rompido e o esgoto passou a ser lançado diretamente nas águas do rio da Prata, que deságua no Miranda. Para as cidades de Jardim e Bonito não há nada mais grave. A região vive da cristalinidade de seus rios, que atraem turistas do mundo inteiro. A pesca é proibida em toda a região e qualquer forma de poluição é crime de ‘‘lesa pátria’’. Por isso, o juiz foi tão radical. E despertou a ira dos seguidores de Moon. Na ocasião, jornalistas que acompanharam os oficiais de Justiça com o mandado de interdição saíram dali corridos, sob ameaça dos seguranças da Fazenda.
Mas a interdição não chegou a ser inteiramente cumprida. Trezentos e oito turistas estrangeiros não puderam ser retirados da Fazenda porque não tinham para onde ir. Nos dias seguintes os administradores de Moon apresentaram projeto para conclusão das obras de esgoto e a interdição foi revogada. ‘‘Hoje não sei como as coisas estão. Mas de vez em quando ouço rumores de que parte dos dejetos continua sendo lançada no rio’’, diz o juiz.

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