Essa noite eu sonhei coisas aleatórias. Eu tenho em mente que os sonhos são frutos de algumas ações do dia que reverberaram no subconsciente de uma forma impactante.

Pois então.

Cheguei a noite do trabalho e fui fazer ovos mexidos. É bom neste momento eu dizer que comprei um saleiro novo. Não daqueles chiques e bonitos mas sim daquele de marcas de sal comum no mercadinho perto de casa. É um tubão. Como eu nunca havia comprado um saleiro destes antes e eles são muito inteligentes, tem 20 tipos de formas de buracos para extrair o sal de milhões de maneiras possíveis de acordo com o prato a fazer, eu passei algumas horas escolhendo a forma correta do buraco que salgaria perfeitamente meu jantar.

Eu estava por fazer ovos mexidos, lembram? Dei a primeira baforada de sal na mistura de ovos e chia. Não vi sair nada, então segui baforando até ver uma pequena camada branca sobre os ovos. Levei ao fogo. Ficou salgado.

Enquanto eu comia, retomei as imagens do momento que eu estava apertando o saleiro para fins de ter algum posicionamento sobre de quatro baforadas, quantas extrapolaram a quantia perfeita? Será que eu deveria ter parado na segunda ou na primeira? Comi mesmo assim, de forma a acompanhar o filme coreano de mistério que eu assistia na Netflix. Bem bom, mas não lembro o nome.

Neste contexto se basearam meus sonhos aleatórios, mas um segundo antes de eu acordar, e aqui está o ponto onde eu queria chegar, quando eu estava prestes a sair do sonho, uma mulher me chama. Eu me viro. De trás de um balcão branco ela aponta e diz: "Cuidado, no saleiro tem açúcar!".

Bom, eu fico aqui com meu enigma enquanto vocês seguem para os contos dos leitores!

Beijos,

PATRÍCIA MARIA

***

UM PEDIDO DE DESCULPAS ABAFADO PARA SEMPRE PELO SOM ALTO DAS 'MAIS TOCADAS'

Nunca estive tão perdido como quando você soltou minha mão, daí foi como eu descesse uma imensa ladeira, perdi os freios, com o frio na barriga de quem está na iminência de um tombo feio, sem ninguém para levantar do chão, para cuidar dos esfolados, apenas algumas pessoas que ririam do tombo. Daí eu esquecia das coisas, deixando tudo pela metade, outras tantas desistia sem nem ter tentado, foi como se tudo tivesse desbotado, perdido a graça, o tom, o equilíbrio.

Eu segui em frente como se fosse uma guerra, porque não havia como parar, não sabia como voltar atrás, queimei a garganta com álcool, como se fosse morfina. Deixei a trincheira porque ela me parecia escura, úmida e anacrônica demais, uma cova, coisa da primeira guerra, já estávamos muito além da segunda, por isso entrei no meu tanque de guerra e passei por cima de tudo sem se importar com o estrago que deixava pelo caminho, quando se dei por mim, tudo era uma terra devastada.

É certo que houve outras pessoas que de algum modo me devolveram o sorriso, deram um tranco no meu coração para voltar a acelerar e o grande defeito dessas pessoas era não ser você, o que elas não tinham a menor culpa. Mergulhei em amores rasos e me estrepei por inteiro, magoei as pessoas que me ofereceram o coração, como quem deixa escorregar um copo de bebida das mãos nas horas perdidas da noite e fica olhando com cara de bobo os cacos de vidro e o líquido derramado pelo chão, em um pedido de desculpas abafado para sempre pelo som alto que grita as mais tocadas.

Enquanto você me perguntava quantos beijos de despedidas eram necessários para perceber que não era o fim, quantos nãos eram precisos ser ditos para ouvir um sim, enquanto você me oferecia o corpo em uma resistência dissimulada e lânguida, enquanto segurava minha mão em uma força quase nula, eu soltava mais um botão do seu jeans, enquanto tentava empurrar minha cintura com uma mão de graveto que se quebra com o vento, até os corpos se comprimirem em um aperto tão forte que verteria líquidos das extremidades. E quando meu corpo se desfalecesse sobre e dentro de você, acreditaríamos por uns alguns segundos que permanecíamos fundidos. Até que uma palavra mal pensada, uma lembrança arredia, uma ferida não cicatrizada nos jogasse cada um, mais uma vez, na extremidade oposta das margens de um rio sem pontes.

Eu não podia mais atravessar aquelas águas turvas e barrentas para te encontrar do outro lado, você nunca aprendera a nadar.

RICARDO CHAGAS é orientador de atividades na biblioteca SESC em Ivaiporã e leitor da Folha de Londrina

Ricardo, desconsiderando que eu não paro de pensar em qual saleiro tem açúcar, não vou comentar o pedido de desculpas abafado para sempre pelo som alto que grita as mais tocadas. Desabafa!



***

POESIA

Cativo juntinho ao teu,
sem nenhum estratagema,
meu coração requereu
teu beijo usar como algema.

***

Finda a noite, e a claridade
fere agora os olhos meus.
Sonhei na felicidade
de beijar os lábios teus.

SONIA REGINA ROCHA RODRIGUES é escritora e médica

***

NOITE DOS MASCARADOS

- Quem é você?
- Adivinha, se gosta de mim!

Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:

- Quem é você, diga logo...
- Que eu quero saber o seu jogo...
- Que eu quero morrer no seu bloco...
- Que eu quero me arder no seu fogo.

- Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
- O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
- Eu tenho um pandeiro.
- Só quero um violão.
- Eu nado em dinheiro.
- Não tenho um tostão.
Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
- Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
- Eu sou tão menina...
- Meu tempo passou...
- Eu sou Colombina!
- Eu sou Pierrô!

Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.

Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!

CHICO BUARQUE DE HOLANDA cantor e compositor

Boa quarta-feira de cinzas para vocês!! abraços e até. Não esqueçam de mandar suas histórias para [email protected]!
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