O engraxate que adorava uma chuva
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terça-feira, 05 de novembro de 2002
Mauricio Della Barba<Br>Reportagem Local 
As nuvens negras que pairavam no oeste indicavam a forte chuva que se aproximava. Era dia de tempo seco, sol forte e calos nos pés. Pelo menos nos do Zezinho, um engraxate que trabalhava de segunda a sábado no Calçadão de Londrina, em frente ao Banco do Brasil. Levava a caixa e seus aparatos nas costas todo o dia, de casa para o Centro, e assim de volta, no ônibus.
Zezinho, agora com 14 anos, era um dos últimos engraxates do Centro da cidade. Conseguiu o posto com o vizinho, que desistiu do serviço para ser caixa de um supermercado. Figurinha conhecida no pedaço, Zezinho era, na realidade, Mateus. Mas como ninguém guardava mesmo seu nome, chamavam-o de ''Zezinho engraxate''. Por lá, disputava a freguesia central com mais cinco ou seis colegas, que ficavam nas quadras acima e abaixo do seu ponto.
Tinha seus clientes cativos e outros nem tanto. Cobrava de R$ 2,00 a R$ 3,00 por sapato. O preço variava de acordo com a cor, o tamanho do sapato e, principalmente, com a cara do freguês. O dinheiro arrecadado dava para pagar as latas de graxa quatro por mês e o marmitex na hora do almoço. O que sobrava, gastava com o transporte, doces e o restante para a mãe, que tinha que alimentar mais outros três irmãos seus.
O vento começou a bater forte e a levantar as folhas caídas no Calçadão, quando Zezinho olhou no relógio. Estava no fim do expediente, quase seis horas da tarde, e precisava ir embora. Estudava à noite e não podia mais perder aula. Estava ''estourado'' de faltas.
Bateu na caixa com a escova, alertando o fim do engraxe para o freguês engravatado. Recolheu suas coisas, pôs a caixa nas costas e saiu andando, com o vento no rosto. Os pingos começaram a cair e Zezinho apressou os passos. A chuva agora era torrencial.
Debaixo da lona de uma loja, esperava a água diminuir. O primeiro ônibus já havia perdido. Espremeu-se mais um pouco para deixar outro homem se abrigar da chuva. Estava tenso e com fome. Olhou o carrinho de cachoro-quente e depois para o relógio novamente. Não teve dúvida.
Saiu na chuva, pediu um dogão e matou a fome. Com o segundo ônibus já perdido, Zezinho ''rachou'' a pé para casa, debaixo da chuva mesmo. Chutou poças de água, brincou na enxurrada e tomou banho na ''cascata'' das calhas. Chegou em casa duas horas mais tarde, todo molhado. Com a barriga cheia e o sorriso na cara, olhou para a mãe que nada entendeu e disse:
- Chuvinha boa, né mãe?
Zezinho era engraxate, odiava a escola e adorava uma chuva.


