O dom de reconstruir vidas
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quarta-feira, 18 de julho de 2007
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Na manhã da última segunda-feira a secretária Fernanda Guedin Wenceslau, de 25 anos, envolveu-se em um acidente que por muito pouco não a deixou sem um dos pés. O que definiu seu destino - ter que retomar a vida sem um membro tão importante ou a possibilidade de voltar a andar normalmente - nos momentos seguintes ao choque da motocicleta com o automóvel foi o espírito humanitário e a paixão de um profissional pela sua profissão. Edson Kenji Takaki, 50 anos, especialista em microcirurgia e cirurgia da mão, foi o responsável pela reconstrução dos 10 centímetros do tornozelo de Fernanda que foram esmagados no acidente.
Durante cerca de seis horas e meia o médico e sua equipe realizaram um minucioso trabalho para recuperar tendões, nervos, artérias e veias, em verdadeira luta para evitar a amputação. Takaki é o único médico que faz este tipo de cirurgia em Londrina, graças ao raro treinamento que foi buscar do outro lado do mundo, há mais de 20 anos. Ao se formar na Universidade Estadual de Londrina, ele conseguiu uma bolsa oferecida pelo governo japonês e estudou durante dois anos na Universidade de Tókio.
Socorrida pelo Siate, Fernanda foi atendida no Hospital Evangélico, instituição onde o especialista opera mas que não está credenciada no Sistema Único de Saúde (SUS) para atendimentos de alta complexidade em ortopedia. Quem vai bancar, portanto, um procedimento que tem um custo aproximado de R$ 30 mil? ''Nessa hora a gente não pensa em dinheiro, simplesmente fazemos o que é preciso e o que é possível naquele momento. Casos como o da Fernanda são dramáticos, o que está em jogo é toda a vida que a paciente tem pela frente, sua família, seu trabalho, e não apenas aquele membro que vamos ou não amputar. O hospital com certeza tem prejuízos, mas na hora não pensamos nisso'', explica o médico, que mais uma vez, não vai cobrar um centavo pelas muitas horas de trabalho.
O cirurgião revela que desde a época de estudante, sempre soube que atuaria em uma especialidade em que nem sempre a recompensa é o dinheiro. ''A maioria dos casos que atendo são decorrentes de acidentes de trabalho. Quer dizer, são operários que dependem do trabalho para sobreviver e dificilmente teriam recursos para pagar uma cirurgia destas. Eu tive a chance de fazer um curso de medicina, de estudar no exterior, recebi um dom de Deus, mas tudo isso só tem sentido se puder ajudar as pessoas. Me preparei a vida inteira para isso, como vou negar um atendimento?''
Para Takaki, é sempre um momento de grande emoção poder usar seu conhecimento e habilidade para garantir que o paciente retome sua vida. ''Quando aquela pessoa tão fragilizada, com dor, nos olha nos olhos e nos pede para ajudá-la, adquirimos uma força que nos faz suportar todo o desgaste da cirurgia'', afirma. Segundo o cirurgião, não é a resistência física que o faz aguentar até 24 horas em um centro cirúrgico. ''O que nos mantêm é o que está na nossa cabeça, o desejo de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance. Ao final da cirurgia, a gente fica uns dias meio fora do ar.''
Para o médico, não se pode dizer que algo é impossível se tentativas não forem feitas. ''É preciso acreditar que conseguimos'', ensina. No caso de Fernanda, ele lembra que ainda existem chances de complicações. Com a ajuda do ortopedista Fernando Simões, a circulação do sangue foi recuperada e os ossos novamente posicionados e fixados. Mas só daqui a uns dias é que a equipe vai saber se deu tudo certo. ''Esta primeira semana é crucial. Os principais perigos são o sangue, por algum motivo, deixar de circular, ou surgir uma infecção'', observa.
Um dia depois do acidente, Fernanda não sabia direito o que tinha acontecido, e talvez ainda não soubesse da complexidade da cirurgia a que foi submetida. ''Acho que minha perna ficou presa entre o carro e a moto. Quando vi, ela estava toda quebrada.'' A secretária contou que quando chegou ao pronto-socorro foi cogitada a possibilidade de amputação, e que naquele momento muita coisa passou pela sua cabeça. ''Como eu ia poder trabalhar, cuidar do meu filho, que ainda tem 6 anos? O desespero só não foi maior porque a dor que eu estava sentindo era muito grande'', revelou Fernanda, que não conhecia o ''anjo'' que a operou.


