A garota Gabriela (nome fictício) tem apenas nove anos e todos os dias enfrenta uma verdadeira batalha para ir e voltar da escola. Não bastasse o fato de depender do transporte coletivo e a distância entre a escola e sua casa, ela ainda leva à tiracolo o irmão Mateus, de seis anos. Eles moram no Conjunto União da Vitória (Zona Sul de Londrina) e estudam no Colégio Vicente Rijo, na Área Central. Assim que acaba a última aula, ela pega rapidamente o irmão pelas mãos e entra no primeiro ônibus com destino ao Terminal Central, onde fica à espera da irmã mais velha, de 14 anos, que estuda na mesma escola. Por que Gabriela e Mateus não esperam a irmã nas proximidades do colégio? ''Por causa do empurra-empurra'', responde ela.
Em um dos maiores colégios da cidade, a situação enfrentada pelos alunos na saída da aula é de tumulto. Os que dependem de transporte urbano, acotovelam-se no ponto em frente à escola, e na chegada dos ônibus, começa uma verdadeira luta corporal para tentar entrar primeiro que o outro e garantir um lugar. ''Eles fazem a coisa parecer mais complicada do que é'', diz um fiscal itinerante da Transportes Coletivos Grande Londrina (TCGL), que monitora a movimentação no local pelo menos uma vez por semana. Segundo ele, em vários grandes colégios a situação é semelhante.
Além da agitação típica da idade, as crianças e adolescentes são obrigados a se espremer dentro dos ônibus nos horários de pico. A estudante universitária Nádia Roque Soares considera um descaso o que enfrenta diariamente para chegar ao emprego e, no final do dia, à faculdade. ''A reclamação é geral. Quando chove é ainda pior. Tem uns fiscais que ficam forçando a porta e espremendo a gente para ela fechar. Isso quando o motorista não sai com a porta aberta.''
No Terminal Central, logo após as 17h30, o que se vê são várias crianças algumas pequenas descendo e entrando sozinhas em ônibus, arriscando-se em perigosas travessias na frente deles. A direção do Terminal demonstra preocupação com os riscos a que as crianças estão expostas.
''Temos dois monitores que acompanham as ocorrências dentro do Terminal, e na medida do possível orientam os usuários. Mas temos dificuldades em abordar as crianças, alguns não colaboram. Além disso, não sabemos exatamente o que podemos fazer'', diz o supervisor de transporte e terminais, Alex José Luciano. Ele revela que pretende entrar em contato com a Promotoria da Infância e da Juventude, Conselho Tutelar e Polícia Militar para buscar orientações de como lidar com as crianças dentro do Terminal. ''Esta é uma situação que nos preocupa'', admite.
A mesma preocupação é demonstrada pela empregada doméstica Juliana Jesus Gomes, que vê diariamente o filho de nove anos (com aparência de seis) pegar o ônibus no Jardim União da Vitória e seguir para o Conjunto das Flores, também na Zona Sul. Às quintas-feiras, o garoto não volta direto para casa ao final da aula. Pega um ônibus para o Terminal Central e, dali, segue para o Jardim Santa Rita (Zona Oeste), onde chega uma hora e meia depois e encontra a mãe, que está lá cuidando da avó do garoto. ''Eu passo por baixo das pessoas para conseguir um lugar. Quando não dá, eu vou perto da porta'', conta o menino, demonstrando intimidade com o tipo de transporte.
A mãe, que ''liberou'' o filho para andar sozinho de ônibus há um ano, diz que só faz isso por extrema necessidade. ''Tenho medo, mas não tem outro jeito'', fala resignada.
A Transportes Coletivos Grande Londrina (TCGL) informou, através de sua assessoria de imprensa, que a planilha das linhas, horários e tipos de ônibus é definida pela Coordenação de Planejamento de Trânsito da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), a partir de uma avaliação da demanda. Segundo a assessoria, nos horários de maior movimento é difícil controlar a superlotação dos carros e um dos motivos seria a falta de paciência das pessoas em esperar a chegada de ônibus mais vazios. A responsável pelo setor de Planejamento de Trânsito da CMTU, Rosimeire Suzuki, não foi localizada ontem pela reportagem.

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