O dia que o doutor virou paciente
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sexta-feira, 22 de dezembro de 2006
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Herika Fondazzi
Reportagem Local
Diz o ditado que em casa de ferreiro o espeto é de pau. E a teoria popular parece se encaixar para a maioria das profissões. Até os médicos, que vivem falando para os pacientes da importância de prevenir doenças, parecem não se importar muito quando se trata da própria saúde.
O médico é igual a qualquer pessoa e acha que as doenças nunca vão acontecer com ele. Ele trata os doentes mas não cuida de si mesmo. Tem a questão do trabalho, muitas vezes estressante, com horas seguidas de plantão, a falta de tempo para exercícios, diz o médico alergista Luiz Alberto Scripes.
Mas como age um médico quando, inevitavelmente, precisa procurar um colega para se tratar? De acordo com o cardiologista Manoel Canesin, atender um colega é mais difícil do que cuidar de qualquer outro profissional. Eles só procuram tratamento quando o caso é grave. Tenho colegas que são obesos, comem de forma errada e não fazem exercícios. Muitos deles só me procuram depois que enfartam, afirma.
Na UTI do Einstein- Foi um descuido que deu início ao drama do nefrologista (especialista em rins) Pedro Gordan, 63 anos. De tanto adiar uma cirurgia para a retirada de uma hérnia no esôfago, as complicações acabaram aparecendo. Era para ser um procedimento laparoscópico, mas foi preciso fazer uma cirurgia porque a hérnia estava bem fibrosada. Eu já tinha 61 anos e também estava obeso. Junte-se a isso a falta de estrutura e higiene do hospital onde fui internado, e acabei tendo uma grave infecção hospitalar, conta.
O resultado foram os 15 dias de internação na UTI do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, necessários por causa de uma séria complicação nos rins e a constatação de como o sistema de saúde funciona mal. Meu médico foi maravilhoso, era e continua sendo um grande amigo até hoje. Mas as condições de trabalho em Londrina estão péssimas. Eu sabia que era ruim, mas não tanto. Pude me tratar porque tive condições de me transferir para São Paulo, além de contar com colegas que me ajudaram muito. Por coincidência, tinha acabado de ser eleito presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia e fui muito bem tratado por todos, mas a maioria das pessoas não consegue isso e acaba morrendo, lamenta.
Ele, que quase perdeu a vida enquanto estava internado, lembra com carinho do colega que cuidou dele. Foi meu aluno e acredito que tenha sido uma provação me ver naquela situação. Como também sou médico, posso julgar melhor e perceber que nada do que aconteceu foi responsabilidade médica. O erro começou comigo, que adiei por muito tempo a cirurgia, e acabou se agravando com os problemas estruturais do hospital, afirma.
De lição, o médico tirou a necessidade de cuidar mais da saúde. Hoje sou um paciente mais obediente, levo mais a sério as recomendações médicas, embora ainda não seja um exemplo. Mas faço exercícios com freqüência, tomo meus remédios direitinho. Quero me cuidar para não precisar ser internado outra vez, comenta.
Morrer de medo- A falta de cuidado durante os tratamentos é outro problema dos pacientes médicos. Muitos interferem, acabam se auto-medicando e não respeitam prazos. Quando um médico fica doente, ele procura um livro sobre o assunto e se auto-consulta, o que é um risco. Mesmo o problema sendo de sua especialidade, ele precisa procurar outro profissional para não se influenciar pelo psicológico, diz o cardiologista Manoel Canesin.
Mas quando o problema é detectado e sua importância comprovada, Canesin garante que geralmente os médicos melhoram sua conduta no dia-a-dia. Médico morre de medo de ficar doente. Ele sabe o sofrimento que cada doença pode causar e isso é assustador. Quando chega ao ponto crítico, geralmente passa a se cuidar, garante o cardiologista.
O alergista Luiz Alberto Scripes é um exemplo de médico que mudou bastante a rotina para recuperar a saúde. Vítima de um entupimento das artérias coronárias há dois anos e meio, ele precisou fazer pontes de safena e mudar a rotina para garantir um vida saudável. Eu estava um pouco acima do peso e hoje faço exercícios diariamente, cuido da alimentação, além de fazer exames periódicos, como sempre fiz, afirma.
O especialista também só tem elogios para o trabalho do colega que o tratou. Eu senti uma dor no peito, fui me consultar e o médico já marcou a cirurgia para oito horas depois, pelo risco de um enfarto. Achei bom porque assim não tive tempo de sentir medo e nem de pensar no assunto e querer adiar a cirurgia. Aceitei o conselho dele na hora e correu tudo bem, lembra.
Ainda assim, Scripes diz que não quer passar novamente por esse tipo de experiência. Prefiro ser médico a ser paciente, sem dúvida.


