O dia em que o Marco Zero de Londrina foi estabelecido
Há 90 anos, em 21 de agosto, a Expedição Smith chegava ao então Patrimônio Três Bocas, na zona leste
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quarta-feira, 21 de agosto de 2019
Há 90 anos, em 21 de agosto, a Expedição Smith chegava ao então Patrimônio Três Bocas, na zona leste
Vitor Ogawa - Grupo Folha 

O dia 21 de agosto deste ano marca os 90 anos do dia em que a Expedição Smith chegou ao Marco Zero de Londrina. Ela recebeu esse nome porque foi chefiada por George Craig Smith, um jovem paulista descendente de ingleses que na época tinha 20 anos e era funcionário da Companhia de Terras Norte do Paraná. A caravana que veio ao então Patrimônio Três Bocas foi composta por 12 pessoas.
Além de Smith, o grupo era formado pelos empreiteiros Alberto Loureiro e Joaquim Benedito Barbosa, engenheiro agrimensor Alexandre Razgulaeff, cozinheiro Erwin Fröelich, topógrafo Spartaco Bambi, agrimensor Kurt Jakowats, peão Geraldo Pereira Maia, além de mais três operários e um guia indígena, cujos nomes se perderam no decorrer dos anos. A expedição começou em um Ford 1929, mas a mata era fechada. A estrada era muito precária e não havia pontes. Por esse motivo foram utilizadas canoas e tropa de burros para se deslocar até a região.
Segundo relato registrado por Smith no livro “Colonização e Desenvolvimento do Norte do Paraná”, escrito pelo jornalista Rubens Rodrigues dos Santos no cinquentenário da Companhia Melhoramentos do Norte do Paraná (sucessora da CTNP), quando partiram no dia 20 de agosto havia uma neblina fria nos vales. E que no mesmo dia chegaram a Jataí, onde dormiram no rancho de palmitos construído por Ian Fraser, escocês, funcionário da Companhia Maxwell. A Companhia Territorial Maxwell foi a responsável pela instalação da primeira olaria (ou cerâmica) em Jataí, entre 1929 e 1930.
“Em Jataí tratamos logo de comprar uma tropa de burros de carga e montaria para prosseguir viagem até as terras da companhia. Contratamos também os serviços de um índio para nos servir de guia”, segundo o relato de Smith. “Bem cedo, no dia 21 de agosto de 1929, tratamos de atravessar o majestoso rio Tibagi. Como não havia ponte nem balsa, todos os animais atravessaram a nado, um por um. Enquanto um de nós ia remando numa canoa feita de tronco de árvore, outro segurava o burro pelo cabresto e guiava-o até a outra margem”.
Foram necessárias várias travessias para transportar tudo para a margem esquerda do Tibagi, de onde iniciaram a caminhada até o local denominado Patrimônio Três Bocas. Mas não foi a única travessia realizada por aquela caravana. A Folha de Londrina de agosto de 1979 traz o relato de Smith que antes do Tibagi eles precisaram atravessar os rios das Cinzas e o Congonhas. Smith tinha mais medo de atravessar o Congonhas, que possui um leito de pedras. Na reportagem publicada em 1979, Smith, que ainda era vivo, relata que o grupo tomou o cuidado de retirar o óleo diesel do Ford, para não misturar com a água.
Quando finalmente chegaram ao seu destino, por volta das 16h30 da tarde, a marcação do ponto inicial de Londrina foi realizada pelo agrimensor russo Alexandre Razgulaeff, que disse “Chegamos”, ao martelar a estaca de madeira que deu início ao empreendimento agro imobiliário.
A MAIS IMPORTANTE
Segundo o museólogo Ninger Marena, essa data deveria ser a mais importante de Londrina, pois é a que determina quando a cidade nasceu, e não o 10 de dezembro, quando se comemora o seu aniversário. Ele explica que essa caravana é resultado de vários anos de estudos preliminares das terras adquiridas pela companhia.
De acordo com o museólogo, essa caravana deveria ter sido realizada no começo de agosto, mas houve atrasos. “Tinha de ser em agosto, porque era o mês que tinha menos chuva. Com o tempo seco era possível levantar os barracos e tendas com mais facilidade”, destaca.
Hoje, se algum turista for ao local, na zona leste de Londrina, vai se deparar com um local degradado. As grades que cercam o espaço estão depredadas. Há muito lixo no chão. E a mata que envolve o monumento que homenageia o ponto no qual Londrina surgiu está longe de ser o local mais seguro da cidade. Marena espera que algum dia o poder público dê a mesma importância que ele ao 21 de agosto.
'NÃO ERA UM TERRITÓRIO TOTALMENTE DESCONHECIDO'
O historiador Rogério Ivano, professor da UEL (Universidade Estadual de Londrina), ressalta que a caravana chefiada por George Craig Smith marca uma fase moderna da ocupação de terras na nossa região. “Aqui não era um território totalmente desconhecido. O local já era mapeado há muitos anos. No século 17 já existia uma missão jesuítica onde hoje fica Cambé", explica. "Até a chegada da Companhia de Terras do Norte do Paraná a narrativa da ocupação e da conquista da terra é feita por outros tipos de figura: pelo colonizador e pelas grandes famílias de fazendeiros e proprietários de terras, que vêm se deslocando com grandes grupos desde a falência das explorações das minas, pelos índios e pelos caboclos.”
A CTNP buscou a legalização da posse das terras para que não houvesse discussão na hora de comercializar os lotes. “A CTNP indenizou alguns desses proprietários, mas a história que nos chega é de que ela teria feito um processo de higienização jurídica e populacional. Há relatos de que a companhia teria usado jagunços para expulsar as pessoas das faixas principais de terra”, destaca Ivano, em contraposição ao relato oficial da companhia de terras.
APÓS SETE MESES
Entre agosto de 1929, data da chegada da Expedição Smith, e 27 de março de 1930, quando a Companhia de Terras Norte do Paraná vendeu o seu primeiro lote – ao pioneiro Mitsugi Ohara - passaram-se sete meses. O professor Rogério Ivano aponta que os primeiros interessados em se instalar por aqui são japoneses que chegam como clientes e fregueses de um negócio. “A caravana é de compradores de terras”, ressalta.
Eles vieram depois da construção de uma estrada de rodagem ligando o patrimônio ao município de Jataí. As áreas foram mostradas pelo agenciador de terras, Hikoma Udihara. Em março de 1930, Massaji Ohara, Massahiro Tomita, Toshio Tan e grupo adquirem 80 alqueires de terras na região leste. Em 1931, estabelecem-se em Londrina Kotaro Hayassaka, Kunjiro Hara e Keimi Kazahaya, também na mesma região.
Um fator alavancador do desenvolvimento da cidade foi a chegada dos trilhos ao município. A Paraná Plantations, que era a matriz da CTNP, comprou as ações da Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná e trouxe os trilhos primeiramente até Jataí, à margem do rio Tibagi, em 1932, e depois os trilhos chegam em Londrina no início de 1935.
Segundo o livro “Colonização e Desenvolvimento do Norte do Paraná”, escrito pelo jornalista Rubens Rodrigues dos Santos, na época a área era “disputada ferozmente por grupos antagônicos constituídos por posseiros e por possuidores de concessões outorgadas pelo governo do Estado do Paraná”.
Santos aponta que o plano posto em prática visando o apaziguamento foi adquirir títulos de concessões inseguros. Em seguida, a CTNP propôs às autoridades que o governo vendesse essas mesmas terras pelos preços estabelecidos em lei, e posteriormente os papéis discutíveis seriam rasgados, pagando duas ou até três vezes pela mesma propriedade para acabar com o litígio.
O professor de arquitetura da UEL Humberto Yamaki relata em sua pesquisa (“Expedições de reconhecimento de terras no Norte Do Paraná: 1925 - 1929”) que antes da Expedição de Smith houve outras três iniciativas de incursão. A primeira foi a Expedição Cordeiro, realizada por um burocrata do governo em meados de 1925, visando avaliar os trabalhos de colonização da Companhia Marcondes ao longo da linha Sorocabana e no vale do Pirapó. Depois disso há a Expedição Barros 1, realizada pela CTNP em 1927, e a Expedição Barros 2, realizada pela CTNP em 1928.


