José Nociti, do segundo andar do Palácio Avenida, não acreditava no que via: um enorme balão da Coca Cola flutuava exatamente no local em que horas depois desfilariam militares e colegiais no 7 de Setembro.
á- Isso já é deboche: o imperialismo está indo longe demais.
Nociti foi até o quarto de despejo, pegou um rifle e começou a atirar contra com a mesma obstinação de um Lee Osvald contra Kennedy. Era demais para ele, nacionalista de quatro costados e ex militar.
Aos poucos, Nociti percebia que o imperialismo é como gato de sete folegos: o balão recebia os tiros e nada acontecia, pois um dispositivo restabelecia a forma original.
José foi para a rua, fazer a pregação, apelar aos militares para os seus sentimentos de pátria, aos líderes estudantis para que se manifestassem contra aquela intrusão herética nos rituais patrióticos.
À noite a Boca Maldita contava com 8.000 curiosos de olho na propaganda do refrigerante. Zé Nociti, da janela, tenta mais dois tiros, inutilmente. Aí toma uma decisão mais nacionalista ainda: desce com dois arcos e duas flechas e procura um voluntário para atingir o alvo que continua impávido colosso. Convence o pintor Nelson Matulevicius a subir num ônibus e atirar contra o balão.
Como nem flechas incendiárias resolvessem o problema, a ansiedade crescia e o povo ululava. Aí chegaram os bombeiros e com o uso de escada Magirus removeram o artefato. O povo, sério e gozador, cantou o Hino Nacional na derrota do bastião do imperialismo no auge da guerra fria.
Um bêbado, na madrugada, olhava a bandeira nacional e declamava Castro Alves: ‘‘Auri verde, pendão da minha terra/ que a brisa do Brasil beija e balança’’.

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