O descanso do guerreiro após 35 anos de serviço
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segunda-feira, 14 de abril de 2014
Paulo Monteiro<br>Equipe NossoDia 
Londrina - Na última sexta-feira, o sargento Roberto Vaz viveu um misto de dever cumprido com uma dose de tristeza. Respeitado até pelos presos, seu tempo de serviço chegou ao fim, após 35 anos de Polícia Militar.
A reportagem acompanhou as últimas horas do seu último plantão e registrou toda a emoção. Aos 54 anos de vida, relembrou ainda os casos mais chocantes e destacou que nunca precisou disparar um único tiro para conter um criminoso.
Das três décadas, 14 anos Vaz passou cuidando do Centro de Triagem da Polícia Militar (CIT), na região Central, onde diariamente passam dezenas de presos. No local, o sargento viveu seus maiores dramas como policial. Parte deles ainda incomoda. "O CIT é uma máquina de suicídios. O caso de um rapaz de 21 anos me marcou muito aqui. Ele foi preso após agredir sua esposa e se enforcou na cela. Quando cheguei lá, o retirei e fiz massagem cardíaca nele, mas não consegui salvá-lo e isso me incomoda até hoje", admite.
"Durante os 35 anos, tive contato com homicidas, latrocidas, ladrões. Todo tipo de bandido. Percebi que atrás de cada um existia uma história triste de vida e sempre procurei escutar e dar uma palavra de conscientização", explica Vaz.
O CIT, que tem capacidade para nove pessoas, frequentemente está superlotado. A tensão é comum no local. Princípios de rebeliões e brigas fazem parte da rotina. "Aí temos que intervir e entrar dentro das celas. Corremos risco o tempo todo. Recentemente, um preso transtornado chegou a me dar uma pesada no peito que atingiu até o meu rosto."
Devido ao caos no sistema prisional do município, muitos presos chegam a ficar vários dias no CIT aguardando transferência. Lugar que não tem água, energia elétrica e nem ventilação adequada. Para amenizar o clima, Vaz sempre buscou entregar água e alimentos trazidos pelos familiares dos detidos e, numa ida e outra, oferecer uma palavra de conforto.
"Uma vez, um garoto de 14 anos foi trazido para o CIT por ter roubado um celular e me contou um pouco da sua história. Ele relatou que seu pai foi assassinado, a mãe tinha problemas mentais, uma irmã era prostituta, a outra mulher de traficante e acabou sendo criado nas ruas", lamenta o sargento emocionado.
Devido à atenção que deu a eles, alguns ex-detentos o reconhecem na rua e param até para cumprimentá-lo. "Muitos dizem como a nossa conversa foi importante naquele momento difícil que esteve preso. Isso me deixa feliz. Penso que a profissão de policial deve ser exercida com muita sabedoria, bom senso e equilíbrio. Foi isso que sempre busquei fazer."


