O desafio de Willie Davids
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Widson Schwartz <br> Especial para a FOLHA 
Do que foi a Estrada dos Pioneiros restam tão somente cinco quilômetros não pavimentados, há o revestimento primário e bastam dez minutos de carro para se percorrer o trecho, numa planície parecendo conclamar os prefeitos de Londrina e Ibiporã a convertê-lo em avenida ligando as duas cidades. Hoje ''um tirinho de espingarda'', no dizer de um usuário, por ali chegou o primeiro administrador de Londrina, Willie Davids, numa dramática aventura que demorou 10 horas em apenas 22 quilômetros desde Jataí.
Faz 80 anos. Chovia em 22 de maio de 1932 e os viajantes passaram a maior parte do tempo desencalhando o Ford 1929 (''pé de bode''), na estrada ''bordada de mata virgem, escorregadia, formando nas baixadas verdadeiros lagos'', narrou Vladimir Revenski, companheiro na aventura.
O próprio Willie, diretor técnico da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), e fatos quase simultâneos à sua vinda indicavam um impulso na colonização. Por exemplo, a renomeação do primeiro núcleo, de Patrimônio Três Bocas para Londrina (''como as filhas de Londres''), havia deliberado João Sampaio (presidente da CTNP) no início daquele mês.
Jataí ouvira o apito do primeiro trem (de carga) em abril de 1932, inaugurando-se a estação em 5 de maio e o transporte de passageiros em 9 de maio. Avançando o leito da ferrovia na margem esquerda do Tibagi, foi possível um telefone em Londrina, interligado através das estações a Ourinhos.
Exatamente 20 anos depois da chegada de Willie, contemporâneos colocaram o seu busto, na praça no Centro de Londrina. ''A primeira grande figura de nossa recente história'', proclamou o prefeito José Richa em 1976, quando a Câmara de Vereadores entregou o título de cidadão honorário em memória de Willie. ''Se a Joaquim Vicente de Castro coube instalar o nosso município, Willie Davids merece as honras de seu primeiro construtor e administrador'', resumiu.
Sujos e famintos
Recém-aberta, a ''estrada de autos'' desviava-se de antigos caminhos, só aproveitando os últimos seis quilômetros do ''Velho Picadão Três Bocas'' até o Patrimônio, na bacia esquerda do ribeirão. Os cinco quilômetros remanescentes situam-se entre a Universidade Tecnológica Federal, em Londrina, e um conjunto habitacional próximo à BR-369 em Ibiporã.
''Lembro-me daquele longínquo dia de maio de 1932'', começou a escrever Vladimir Revenski em 1959. O narrador é russo e menciona dois escoceses já no primeiro parágrafo. ''Quando após ter pernoitado em Jatahy, na casa do sr. Maxwell em companhia do corajoso Ian Fraser, dirigimo-nos Dr. Willie e eu, num pé de bode de cor marrom, guiado pelo chauffeur João Rochinski, à balsa sobre o Rio Tibagi''.
Às 10 horas ''aproximadamente'' o Ford entrou na estrada. ''Tinha chovido à noite e ameaçava continuar. Isto não demorou. Até o acampamento do Miguel Bender e da sua turma de construção da aludida estrada, conseguimos chegar relativamente bem e paramos ali para tomar um cafezinho. Sem, infelizmente, aceitar o almoço que nos era oferecido.''
''Dali para diante (...) as dificuldades começaram. A chuva não desmerecia (desvanecia) e a estrada, recém-construída, bordada de mata virgem, era escorregadia, formando nas baixadas verdadeiros lagos que tínhamos de atravessar a grande custo. Muitas vezes Dr. Willie e eu descíamos do carro para o empurrar e tomávamos verdadeiros banhos de cima, o de chuva, com água limpa; de baixo, das rodas do carro, de água barrenta, vermelha, que os pneus derrapando nos borrifavam em profusão. (...)''
''Enfim, lá pelas oito horas da noite conseguimos, sujos, cansados e famintos, chegar ao hotel da Companhia de Terras Norte do Paraná, bem na divisa do princípio dos seus terrenos.''
Revenski viera para o Brasil em 1929, ingressou na Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná em 1930 e a seguir na Companhia de Terras, ''recebendo os materiais para a construção da sede, das casas do Dr. Willie, do médico, do escritório, enfim erguendo a futura Londrina'', palavras suas no legado histórico.


