Curitiba - O Rio Barigui nasce na Serra da Betara, entre Almirante Tamandaré e Rio Branco do Sul (Região Metropolitana de Curitiba), corta Curitiba por 45 quilômetros e deságua no Rio Iguaçu, na divisa da Capital com Araucária. Nesse percurso, o Barigui sofre com o esgoto - apenas 60% das residências da região têm coleta e tratamento de esgoto - e com o lixo despejados em suas águas. Hoje, quando se comemora o Dia Mundial da Água, especialistas apontam que o caminho da recuperação do rio passa necessariamente pelo resgate social das pessoas que vivem nas margens.
''Junto com as casas, que são precárias, vem o despejo do esgoto não tratado no rio, o lixo e a degradação das margens'', aponta o presidente da Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab), Mounir Chaowiche, que defende o resgate social dessas famílias.
''Só a realocação dessas famílias não resolve o problema, mas é parte do processo'', defende Marco Grassi, químico ambiental e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Para o especialista, além de retirar as famílias, é preciso impedir que o esgoto não tratado seja despejado no rio e que a área seja reocupada.
''O esgoto é o grande vilão da poluição das águas hoje'', aponta. Já a recuperação da margem pode colaborar com a melhoria da qualidade da água. ''A vegetação ribeirinha funciona como filtro, retendo poluentes que são trazidos para o rio pela água da chuva'', explica.
O problema é que para manter as margens protegidas é preciso garantir que, uma vez realocados, os moradores não voltem para a condição de sem-teto. Uma tarefa complexa quando se conhece a história de quem está na beira do rio.
Na Vila Nova Barigui, na Cidade Industrial de Curitiba (CIC), as histórias de quem mora precariamente se repetem todos os dias. ''Não conseguia pagar o aluguel e vim parar aqui'', conta o eletricista João Gomes Machado, que mora na beira do rio com a esposa e o filho.
Ali, as famílias convivem com o mau cheiro, o lixo e o risco constante de inundações. ''Eu me preocupo com isso, mas me preocupo mais com a minha sobrevivência'', diz. Machado vive de bicos na construção civil. ''Aqui a casa é minha, não pago aluguel'', conta.
A situação de Machado deve mudar na terça-feira, dia 24, quando ele e outras 42 famílias da região serão realocadas para as Moradias Aquarela, no Caiuá. ''Não tenho para onde ir. Se for um lugar melhor, ficamos por lá'', diz.
Para quem ainda não foi contemplado pelo programa de moradia popular, as casas próximas ao rio ainda são uma opção para fugir do aluguel. Na região, um imóvel pode sair de graça ou por até R$ 30 mil. ''A gente deu um carro, cerca de R$ 6 mil, em troca da casa. É melhor que pagar R$ 200 de aluguel como pagávamos antes'', conta a dona de casa Andressa Peres Xavier, que vive na margem do rio com o marido e a filha há oito meses.
O casal só descobriu que o negócio não era tão vantajoso assim na virada de 2008 para 2009. ''Fomos passar as festas no Litoral e quando voltamos descobrimos que tinha alagado tudo'', conta. Quando o rio enche, a água traz para as casas o lixo que a vizinhança despeja em seu leito. ''Aqui tem coleta, mas o povo joga tudo no rio mesmo assim'', aponta.
A vida ao lado do rio não é fácil. ''O cheiro é ruim e tem muita mosca, o que incomoda o bebê'', relata Andressa. Ela e o marido agora esperam ser sorteados pela Cohab para ter direito a uma casa popular. ''A gente sabe a lei, mas cada um tem a sua condição. A nossa é ficar aqui até poder mudar'', diz.

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