Conquistar um emprego é uma tarefa difícil e fica quase impossível para a população que um dia viveu nas ruas. Quem observa o auxiliar de funileiro Cristiano Henrique Scalcon, de 35 anos, trabalhando na empresa Transportes Coletivos Grande Londrina (TCGL) jamais poderia imaginar que há seis anos e meio ele vivia em um barraco construído entre os galhos de uma árvore, em frente ao Aeroporto, na zona leste da cidade. Scalcon passou fome e frio e enfrentou muitos dias de chuva nessa moradia precária. Sua vida mudou quando foi abordado por uma equipe do projeto Sinal Verde, vinculada à secretaria municipal de Assistência Social. Naquela época ele dormia de dia e trabalhava como cuidador de carros ao lado do aeroporto durante à noite. O dinheiro que ganhava era gasto no consumo de álcool e drogas.
"Me levaram à Casa do Bom Samaritano, ajudaram a providenciar documentos e eu frequentei sessões com psicólogos, fiz trabalhos artesanais e terapias de grupo", relembrou Scalcon. Depois, ele passou a entregar panfletos e logo surgiu um teste na TCGL. "Eles deram um voto de confiança e passei a trabalhar na limpeza dos ônibus, onde fiquei três anos. Há dois anos fui promovido a auxiliar de funileiro", contou. Para quem não enxergava saída para a sua situação, a conquista e a permanência no emprego melhorou a sua autoestima. "Agora posso andar de cabeça erguida, sem ser discriminado. Nesses 5 anos e 1 mês que trabalho aqui não faltei vez alguma", destacou.
O chefe de Scalcon, o encarregado de reforma Valmir Generoso, elogia o desempenho do ex-morador de rua. "Ele superou todas as dificuldades e conseguiu vencer. É um funcionário obediente e dedicado", afirmou.
Generoso observou que nem todos aproveitam uma oportunidade dessas. Ele lembrou de um ex-morador de rua que não conseguiu permanecer seis meses no trabalho. "Por isso eu acredito que depende muito da vontade da pessoa querer mudar de vida", ressaltou.
O encarregado de reforma ressaltou que para um empresário é complicado oferecer uma oportunidade como essa, mas todos deveriam tentar. "É difícil, mas isso pode representar a diferença entre a pessoa se tornar um marginal ou ser alguém na vida", enalteceu.

Em movimento
Um outro exemplo de superação é o zelador e jardineiro João Ricardo Rosário, de 50 anos. Durante oito anos ele viveu nas ruas de Londrina, dormindo em pontos de ônibus ou sob marquises de prédios e de outros espaços públicos. Ele revelou que o álcool foi o motivo de sua decadência. "Passei a beber demais depois que me separei da minha mulher. Bebia entre dois e três litros de pinga todos os dias." No ano passado essa dependência do álcool quase o matou e ele foi hospitalizado por três dias. Depois disso foi encaminhado ao Serviço de Obras Sociais (SOS) de Londrina, onde mora até hoje.
"O pessoal do SOS me levou ao Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps-AD), onde frequentei sessões com psicólogo, participei de terapias ocupacionais e foi onde tomei a decisão de parar de beber, caso contrário eu morreria", afirmou Rosário. O tratamento surtiu efeito e ele abandonou o álcool.
Desde agosto de 2012 Rosário trabalha no Colégio Interativa e isso vem contribuindo para melhorar a sua concentração, senso de responsabilidade e autoestima. "Eu tenho que ficar em movimento o tempo todo, não posso ficar parado, senão logo vem o desejo de voltar a beber, mas tenho resistido", declarou.


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