A ação do tempo é implacável e, por mais que muitas pessoas neguem, dissipar o medo da velhice é uma tarefa árdua, pois mexe com o brio e a vaidade. Difícil encontrar quem chegue à maturidade sem 'grilos' e preconceitos, tanto que, há vários anos, pesquisas vêm comprovando esse comportamento. Tentando entender a relutância na aceitação dos cabelos brancos que aumentam com os anos, em 2007, a antropóloga Mirian Goldenberg, autora do livro ''Coroas'', deu início a um estudo, comparando as cariocas com as alemãs.
As diferenças entre os valores culturais chamam a atenção. A começar pelo próprio significado da velhice. Segundo ela, na Alemanha, pessoas de 50, 60 e até 70 anos, com boa saúde e produtivas, não são consideradas velhas.
''As mulheres alemãs se sentem no auge da vida e saboreiam os ganhos. Se vêem e são vistas como extremamente interessantes. Para elas, capital é sinônimo de qualidade de vida, cultura, trabalho, viagens. No Brasil, o capital é o corpo, a aparência, a juventude'', conta a antropóloga. Diante desses dados, não é de se espantar que o Brasil ocupe o segundo lugar em realização de cirurgias plásticas, perdendo somente para os Estados Unidos. Isso prova a busca incessante pela juventude eterna, como se ao esconder as 'primaveras' vividas, a felicidade estivesse garantida.
Contudo, no país do samba e de corpos exuberantes, há quem consiga ser amigo do tempo e envelhecer com sabedoria. Assim como a dona de casa Irene Soares Martins, de 60 anos, que esbanjando saúde e uma energia invejável, não deixa que a idade a abale. ''Tenho o espírito de jovem e um coração de menina. Só posso agradecer por chegar na minha idade com a saúde boa, sem ter nada'', comenta.
E não é à toa que Irene dá um 'banho' de vitalidade em muita gente nova por aí. ''Três vezes por semana frequento academia de ginástica e natação. Nos outros dois dias faço hidroginástica. Se tenho um tempinho, ando de bicicleta no quarteirão. E ainda limpo a casa inteira sozinha. Não tenho empregada, não'', revela. Apesar de se orgulhar de realizar todas as tarefas domésticas, ela diz que não gosta de ficar em casa por muito tempo. ''Sempre dou um jeito de sair para me movimentar. Quando levo meu neto à escola, aproveito para voltar caminhando, mas não é devagar. É no passo apertado'', destaca.
Quem pensa que a vida dela se resume a isso, está enganado. Juntamente com o marido, cuida de uma pousada no Litoral paranaense. E ainda não para por aí. Sobra muita disposição para ir a bailes, churrascos de fim de semana e viajar em excursões. ''Amo uma bagunça. Tudo o que é gostoso, estou dentro. Se vou a bailes, danço a noite toda'', comenta ela, que não dispensa uma cerveja gelada. ''Meu marido toma uma taça de vinho e eu, uma cervejinha.''
Mesmo não sendo uma vaidosa de plantão, ela diz que não deixa de se cuidar. ''Gosto de me arrumar, pintar o cabelo e as unhas, mas nada para esconder a idade que tenho. As rugas são as marcas da minha vida. Não adianta fazer dezenas de plásticas para ficar bem por fora, mas a cabeça estar ruim. Posso dizer que sou uma velha feliz. Gostaria muito que todos pensassem assim'', ensina. ''O que eu gosto nessa vida é viver. Se Deus quiser me levar eu vou, mas vou sob protesto'', brinca. (Com Agência Estado)

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