Filho dá trabalho. Exige atenção, cuidado, dedicação. Quem tem, sabe que só um já muda a rotina de uma casa, transforma radicalmente a vida da família, faz com que nada seja como antes. E quando os filhos são em quantidade suficiente para um time de futebol, com reservas e tudo? Quem responde é uma das mulheres especiais que aparecem neste texto, que aceitaram o desafio de receber e cuidar de até 15 crianças com se fossem seus filhos: ''É preciso ter um dom especial para suportar.''
Rosângela Nogueira Ferreira, 38 anos, é mãe social do Lar Anália Franco, entidade pioneira no Brasil na implantação de casas-abrigo para acolher crianças abandonadas por suas famílias ou vítimas de violência. Há mais de cinco anos, a rotina de Rosângela é a de levantar muito cedo para preparar a grande família, cuidando das roupas de cada um, servindo café da manhã, fracionando carinho. ''É uma correria, mas o amor que eu sei que eles sentem por mim compensa. É uma grande satisfação'', garante a mãezona.
Com ares de mulher incansável, ela teoriza: ''Quando a gente cuida de mais de um filho, a quantidade já não faz muita diferença.'' E não é só isso. Rosângela revela que quando morava só com o marido e os dois filhos biológicos, tinha, surpreendentemente, a sensação de que o trabalho era maior. ''Eu sentia mais cansaço, não sei explicar por que.''
Iracema Roberta Bezerra, 56 anos, larista há 30 anos, tem uma explicação simples e definitiva. ''A gente aguenta porque gosta do que faz.'' Ela, na verdade, adora. Ao lado do fogão, onde prepara o jantar cheiroso, Iracema é o retrato da mulher que nasceu para ser mãe de muitos filhos. ''A gente vê eles crescerem, casarem, depois voltam e trazem os seus filhos para a gente conhecer. Tenho tantos 'netos' que até perdi as contas. Acho que só no dia que não tiver mais condições físicas é que vou embora. Enquanto aguentar, vou cuidar destas crianças'', afirma.
Abnegação é o que move essas mulheres. ''Já sou aposentada, não estou aqui por causa de casa e comida'', lembra Iracema. A mais antiga das cinco mães sociais do Lar confessa que o mais difícil é a falta de tempo para a vida pessoal. Os casais têm uma folga mensal. Nos outros, quando a maioria das pessoas descansa ou passeia, o trabalho é dobrado, já que recebem também as crianças do casal que está de folga. Como não têm aulas, nestes dias os abrigados fazem todas as refeições em casa, e muitos recebem a visita dos pais biológicos, por determinação da justiça.
''Aqui minha vida sofreu verdadeira transformação porque estava acostumada a cuidar só de dois filhos. No começo achei que não ia dar conta, sempre gostei de tudo no lugar e muito organizado. Com tanta gente em casa fica mais difícil, mas me adaptei muito bem, e não penso em sair daqui tão cedo'', relata outra mãe social, Elaine Aparecida da Silva, 36 anos, que mora há dois anos em uma das casas do Anália Franco.
Rosângela, Iracema e Elaine fazem parte de um grupo de mulheres que merecem ser lembradas no Dia das Mães e em todos os dias do ano. Generosas, acolhem crianças que não colocaram no mundo. Solidárias, proporcionam a filhos que não têm seu sangue o prazer de viver em família. ''Elas são umas heroínas'', reconhece o presidente do Lar, Waldir Piedade.

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