Os três vinham num passo apertado, subindo a avenida Rio de Janeiro em pleno sol de meio dia. Óculos escuros, muito gel no cabelo; o menorzinho usava boné.
- Cara, quando a minha mãe se tocar, vai ser a maior zoeira! Ela nem imagina que eu sei vir sozinho pro centro.
- Vai sobrar, meu. Cê sujou geral na tua casa.
- Se liga, fio! Hora que eu voltar ela vai ficar tão contente que nem vai pesar minha barra. Pela conversa, o trio era suspeito do mesmo ''crime'': tinham fugido de casa para passear no centro.
- Meu, aquele CD dos Racionais é muito massa, cara. Será que tem no camelódromo?
- Eu quero ir naquela loja que tem escada ''volante'', lembrou o menorzinho.
- Não é volante, é rolante, seu 'nerd', corrigiu um dos mais velhos.
- Eu quero comprar um boné, cara. Quanto será que custa?
- Quanta grana você trouxe?
- Seis reais. Será que dá?
- Eu tenho dois reais mas vou comprar sorvete, avisou o pequeno.
Mal tinha acabado de falar, enroscou o pé numa raiz de árvore e foi de boca para o chão. Os dois maiores só perceberam a falta do pequeno ao ouvir o grito, seguido pelo choro. Sentado no chão, boca sangrando, um dente da frente quebrado, o garotinho soluçava alto.
- Não chora, Zé. Não foi nada, enganou um deles.
- Você não tem alguma coisa aí pra gente limpar a boca dele? - perguntou para o colega.
- Eu não. Cara, acho que ele quebrou o dente.
Ao ouvir isso, o pequeno aumentou o volume do choro.
- Zé, pára com isso. Não chora assim, tá todo mundo olhando, ralhou o maior.
Uma mulher emprestou um lenço e foi logo perguntando:
- Cadê a mãe dele?
Pronto, era só o que faltava.
- Eu quero ir pra casa, disse o pequeno.
- Quer ir pra casa coisa nenhuma, Zé! A gente nem começou a passear ainda. Levanta aí, vou levar você na escada rolante.
- Zé, vamos comprar sorvete? Olha ali na frente, tem daquele sorvete de máquina que você gosta. Vem, vamos lá...
Sem chance de acordo, os dois maiores limparam a boca do pequeno e fizeram meia volta.
Já dentro do ônibus, um dos meninos lembrou:
- Meu, como é que a gente vai aparecer em casa com o Zé desse jeito? Minha mãe vai arrancar meu couro!
O pequeno fungou e o choro ficou mais alto.
- Zé, sabe aquele carrinho que você quer? Vou dar dinheiro pra você comprar. Olha aqui, 6 reais.
A mãozinha pegou o dinheiro e apertou com força. O choro diminuiu e parou.
- Você não precisa falar nada, Zé. Deixa que eu conto, tá bom? O garotinho olhou para o irmão mais velho e fez a última exigência:
- Tá certo, mas quando meu dente sarar você traz eu no camelódromo pra comprar o carrinho!

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