Um corsário aportou em Londrina esta semana. Mas o Atlântico está distante daqui, lembram alguns. Por aqui não há nem sombra do Pacífico e muito menos do Índico, observam outros. Assim mesmo o corsário atracou. Talvez ele tenha visto o Igapó seco na sua chegada. Pode ser que tenha lamentado a lama e os moluscos mortos. Mesmo sem oceano, sem salinas, sem geleira, o corsário lançou âncora e rumou para o centro da cidade.
Sem ter um cais para pisar, o músico João Bosco, o corsário, subiu em um palco. Ele e o violão falaram das mensagens que enviaram em garrafas por todo o mar. E lembraram do cais. Disse o corsário, recordando, para alguns, o poeta Fernando Pessoa, para quem ‘‘todo cais é uma saudade de pedra’’. Saudoso de um cais distante, do inexplicável, de um barco que avançou no mar, o corsário João cantou os dilemas humanos.
Os medos humanos estavam contornando o palco onde cantava o corsário João. O Filo (Festival Internacional de Londrina) dispôs em cantos e reentrâncias do palco as esculturas de homens alados. Asas de madeira, de penas, rostos sisudos e olhar distante, os homens-anjos ou homens-demônios, incompreensíveis, ouviram o corsário falar do bêbado e do equilibrista. O bêbado, cantou João, trajava luto e lembrou-lhe Carlitos. À entrada do cais improvisado, uma serpente de olhos de balde lembrava os medos dos homens do mar e de terra.
E seguiu João falando da incompatibilidade de gênios dos casais, de Jade, do mestre-sala do mares e de arco-íris de papel crepom. Tal qual criança grande, o corsário falou do brinquedo de papel-marché. O corsário disse que seu coração tropical estava coberto de neve, mas o do público ardia. E foi de pé que o público o viu recolher âncoras e partir rumo ao mar.
Foi embora o Filo e ficou a saudade da presença próxima da arte. Foi-se o corsário e ficaram o lago seco e os moluscos mortos. Foi-se o público e ficou a saudade de pedra do cais.

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