Foz do Iguaçu De um lado, jovens, mulheres, pais de família, homens sem muita instrução que transitam na linha estreita que separa a informalidade da marginalidade. Ou mesmo diplomados que não conseguiram vencer o desemprego dos grandes centros ou a falta de oportunidade nas pequenas cidades.
São milhares de rostos suados pelo esforço de transportar pacotes volumosos e pesados sob o forte calor que assola a Tríplice Fronteira nas últimas semanas da primavera. Uma imagem épica do ganha-pão de brasileiros de muitos sotaques.
Um retrato do Brasil, a partir de onde ele acaba ou começa. De gente que acorda antes do sol raiar e que conta seus dólares em um quarto de hotel simples antes de fazer a única viagem internacional que podem esperar da vida. Gente que se diz trabalhadora, que pega estrada em busca de ''dignidade'', mesmo sabendo que ''não está fazendo uma coisa certa'', cometendo habitualmente o descaminho e o contrabando, crimes dos quais pouco foram informadas ao longo da vida.
Poucos têm tempo de conhecer a mata subtropical do Parque Nacional do Iguaçu e suas monumentais Cataratas, a maravilha que atrai europeus, norte-americanos e japoneses, mas que parece remoto ou supérfluo demais para quem faz da feiúra de Ciudad del Este seu habitat.
A remodelação feita recentemente nas ruas centrais, bancada pelos próprios comerciantes, não foi suficiente para transformar a segunda maior cidade paraguaia num lugar aprazível.
As ''calles'' continuam imundas, a sinalização é precária, o risco de atropelamento não diminuiu, o tráfego permanece difícil e lento, a combustão do diesel (boa parte da frota de veículos de passeio usa este combustível) carrega o ar, os labirintos que dão acesso às galerias chamadas de shoppings também são sujos, escuros, estreitos, inseguros.
Quando a chuva de verão lava tudo, as águas turvas se acumulam rente ao meio-fio e as poças se tornam mais um obstáculo para caminhar, como já não bastassem as dificuldades impostas por calçadas instransitáveis, tomadas por barracas de camelôs que formam uma espécie de corredor polonês das ofertas em portunhol.
E, nestas ocasiões, usar o asfalto para chegar à próxima loja também não é lá uma opção muito viável. As ruas ficam tomadas por estacionamento nas duas mãos e coalhadas de táxis (geralmente Toyotas Corollas brancos com avarias espalhadas por toda a lataria) e vans de altíssima quilometragem.
No anoitecer, quando o trânsito deixa de ser um problema é a vez das montanhas de caixas de papelão se formarem nas esquinas. Os ratos e os insetos podem se esconder e proliferar à vontade sob elas.
Para os ''compristas'', como preferem ser chamados, ou os ''contrabandistas-formiguinhas'', como prefere o comando da Receita Federal, turismo é apenas uma palavra pintada na lataria ou que figura no letreiro do pára-brisa. Os cargueiros da fronteira são diferentes dos ônibus fretados pelas operadoras de turismo brasileiras ou argentinas.
Os possantes de dois andares, com ar-condicionado, vidros escuros, estofados com estamparia de bom gosto, bancos largos e reclináveis em 180 graus, passam longe da Ponte da Amizade e seu cenário desolador. O ponto é território dos cargueiros, ônibus, que segundo a RF, tem em média 15 anos de fabricação, e chegam a transportar 600 caixas de cigarro ou até US$ 50 mil em mercadorias variadas, nesta época especialmente eletrônicos e brinquedos.
O modelo mais comum para transportar tanta coisa são os ônibus mais leves, com carroceria de alumínio (conhecidos como Dinossauros por terem sido exclusivos de uma viação paulista), e que atingem até 160 quilômetros por hora e saciam a vontade dos sacoleiros de voltarem logo para casa.
Os sacoleiros pintam a fronteira mais movimentada da América do Sul com o xadrez colorido das imensas sacolas plásticas (65 centímetros de altura, 70 de comprimento, 28 de largura, são vendidas nas ruas do centro comercial por um preço que varia de R$ 3 a R$ 5,00 e é uma espécie de uniforme para a muamba) e, sem culpa, promovem a sangria do Fisco e da indústria nacional, ignorando a cota máxima de compras por pessoa, estabelecida em US$ 150,00 (os comerciantes de Ciudad del Este fixaram a moeda norte-americana em R$ 3,01, cerca de 10% maior que o câmbio oficial).
Trocam o temor do desemprego e da pobreza pelo temor de um inimigo poderoso mas batível, que fica à espreita do outro lado da ponte ou em Medianeira, a palavra que dá calafrios e que remete a humilhação e a prejuízo.
O medo se justifica, especialmente para os chamados ''peixes pequenos''. Do outro lado da fronteira está o Estado brasileiro, representado pela efetivo policial mais preparado do País, a Polícia Federal (PF), a postos para combater o ingresso de estrangeiros ilegais, de drogas e de armas.
Do outro lado da fronteira que ferve, principalmente a partir de novembro, quando os sacoleiros vão se abastecer para as vendas de Natal, também estão os temidos coletes da Receita Federal (RF), vestidos pelos homens que tem a incumbência de evitar o descaminho (produtos que ingressam no País sem pagar impostos de importação) e o contrabando (produtos de venda ilegal no território nacional).
Em ações especiais, como a Operação Cataratas, iniciada no dia 8 de novembro e encerrada na semana passada, os dois efetivos contaram com o reforço de outras forças, como a Polícia Rodoviária Federal, a Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), o Departamento de Estradas e Rodagens e a Promotoria de Investigação Criminal (PIC). É o Estado unido contra o ''contrabando-formiguinha'', que movimenta a rede hoteleira de Foz do Iguaçu, uma das maiores do País graças em grande medida aos cerca de 3,5 mil ônibus de sacoleiros que desembarcam na cidade todos os meses.
É fácil entender como se formou este fenômeno, que cresceu gradualmente desde meados dos anos 80 e atingiu seu ápice uma década depois com a paridade real-dólar. Tanto a aduana paraguaia quanto a brasileira não são obstáculos de fato aos sacoleiros, mesmo quando a fiscalização aperta, como acontece nos dois últimos meses de todos os anos desde então. Neste período, estimativas da RF davam contaque o País perdia a tributação sobre um volume anual de vendas ilegais de US$ 12 bilhões.
Sem efetivo, como admite o próprio comando da delegacia da RF em Foz, e sem segurança o suficiente para deter o fluxo de mercadorias, escoado das mais variadas formas pelas cerca de 40 mil pessoas que passam diariamente pela ponte, a repressão mudou de estratégia. Hoje, a RF prefere centralizar o pente-fino em seu posto de fiscalização na BR-277, em Medianeira (58 km ao nordeste de Foz do Iguaçu), uma estrutura que já existia havia cerca de 15 anos, mas que foi ampliada e modernizada no ano passado, tornando-se, na verdade, uma aduana avançada.
''Uma fiscalização mais rígida poderia criar um clima de hostilidade e violência na ponte. Os fiscais poderiam ficar expostos a uma reação coletiva violenta'', explica o chefe do Serviço de Fiscalização da delegacia da RF em Foz, Sérgio Savaris.
A situação pode mudar em 2005 com o possível início da implementação do Plano Nacional para Áreas Aduaneiras. O plano, que será financiado com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento, contemplaria prioritariamente a Ponte da Amizade na primeira fase de execução. O local ganharia novas baias de fiscalização, com scanners, balanças e um aparato tecnológico capaz de ampliar o número de abordagens e o controle efetivo no tráfego de veículos e pessoas.
Carlos Trematore, do Serviço de Controle Aduaneiro e coordenador da Operação Cataratas, vê avanços no combate às atividades ilegais na fronteira. Apoiado por estimativas do órgão, ele acredita que blitze mais frequentes estão tendo um impacto psicológico nos sacoleiros. ''Hoje eles se sentem mais na clandestinidade e arriscam menos'', afirmou. Em 2004, o comércio decadente de Ciudad del Este irá faturar US$ 1 bilhão, ou 12 vezes o volume de 1996. ''Além do fluxo de ônibus ter caído, cada um deles tem transportado menos mercadorias temendo prejuízos ainda maiores'', explica Trematore. ''Para os próximos anos, a tendência é que o volume continue caindo'', prevê.
Segundo Savaris e Trematore, os dois principais motivos da queda gradual no movimento são os prejuízos com as constantes apreensões, que descapitalizam os sacoleiros, e a logística para a travessia da fronteira e para alcançar o destino estão encarecendo a atividade, tornando-a menos atraente.
Na Delegacia da Polícia Federal em Foz, a maior unidade do País em volume de inquérito, o déficit no efetivo apenas 50 agentes, 14 delegados e 18 escrivães (como comparação, em São Paulo são mais de 100 delegados para um número menor de inquéritos) é apontado como fator preponderante para que Foz se mantenha como destaque nas rotas de contrabando. ''A carência no efetivo é um problema da Polícia Federal como um todo. Mas aqui em Foz ela é maior, é gritante'', afirma o delegado Paulo Renato de Souza Herrera, chefe do Núcleo de Operações.
Com veemência, Herrera demonstra uma intolerância pragmática quando fala sobre uma coisa que muita gente chama de trabalho. ''A livre movimentação dos sacoleiros é uma afronta ao poder público. Como cidadão, eu me envergonho desta situação'', desabafou.
Para o delegado da PF, a principal deficiência no combate ao contrabando e ao descaminho é a falta de uma fiscalização mais rigorosa na região da Ponte da Amizade, uma atribuição compartilhada entre sua própria corporação e dos fiscais da Receita Federal. ''O contrabando é um crime muito danoso ao País. As pessoas precisam compreender isso''.
Leia amanhã: Receita Federal luta contra as estratégias dos sacoleiros

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