O começo: a cola de
sapateiro no caminho de
uma criança indefesa
B.F.C. acaba de fazer 12 anos. É um menino, magro e indefeso, que poderia estar pelas ruas de Maringá jogando uma pelada de futebol com os amigos depois da escola. Apesar da pouca idade, ele já tem problema de gente grande. Foi internado no Cervin há cerca de dois meses para se libertar das drogas. B.F.C. conta que conheceu as drogas quando tinha 8 anos e, imediatamente, parou de estudar. Um primo mais velho foi quem se encarregou de introduzi-lo nesse perigoso caminho. Cheirou cola, fumou maconha e há mais de um ano conheceu o crack. A partir daí, conta, a situação começou a se complicar.
‘‘Perdi o jeito das coisas. Tinha tanta vontade da droga que roubava o que via pela frente. Vendia para comprar o crack. Comecei a ficar na rua direto. Com outros colegas cheguei a ficar até dois meses num mocó (casa abandonada) e a participar até de arrombamentos e outros crimes.’’
Mesmo estando há poucas semanas no internato, B.F.C. confessa que tudo o que quer é sair dali liberto do vício. ‘‘Quero me recuperar, voltar a estudar, trabalhar e ajudar a minha mãe.’’ E aconselha: ‘‘As crianças devem ficar bem longe das drogas’’.
J.C.S., 15 anos, de Rolândia, está na fase final do tratamento. Também começou bem cedo, aos 10 anos, com cola, álcool e maconha. ‘‘Nem gosto de pensar nas coisas erradas que fiz. Fico revoltado com os arrombamentos de bares e mercearias. Tudo para arranjar dinheiro para comprar droga.’’ J.C.S. afirma com convicção que está recuperado. ‘‘Não sinto nenhuma falta das drogas. Deus transformou meu jeito de viver e agora estou ajudando outros adolescentes que chegam com o mesmo problema’’, diz.
Antônio Avelino dos Santos, coordenador da Unidade Rural da instituição, também foi um jovem viciado. Recuperado em São José do Rio Preto (SP), ele passou a trabalhar com drogados. Para ele, a onda do crack foi a pior coisa que aconteceu. ‘‘Temos visto crianças com 9 e 10 anos totalmente dependentes do crack. Ao contrário da cocaína, cujo acesso é mais difícil, o crack ganhou a rua de forma absurda. E os jovens em tratamento passam por um verdadeiro pesadelo quando começam a se recuperar. É assustador o efeito do crack sobre jovens e adolescentes e as marcas que ele deixa.’’ (E.A.)

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