O tempo que não espera; esconde atrás da cortina dos anos histórias que passam a pertencer à saudade. Ainda bem que existe quem se dê ao trabalho de manter vivo o passado, desafiando essa lógica impiedosa, que cobre de poeira até a melhor lembrança.
Ofício que requer um esforço que não é só de memória. É tempo que se dá ao tempo, colecionando ao longo de décadas 'causos' que se fossem contados não caberiam numa única vida, mas que o agropecuarista Ayrton Jesus Araújo, o Ito, como gosta de ser chamado, guarda em caixas, armários e estantes. Um acervo particular que reúne peças suficientes para a criação de um museu e que se confunde com a decoração de sua casa numa chácara em Tamarana (62 km ao Sul de Londrina).
É preciso ter tempo para ouvir o que significam os 50 anos de casamento com dona Ivone, contados através de um caldeirão de alumínio, que furou de tanto cozinhar feijão para a família. Peça, aparentemente sem valor comercial, porém das mais queridas do museu do seo Ito, reproduzindo parte do diário de bordo da vida doméstica e que descansa numa estante, com o nome do casal gravado num banco com encosto feito de canga de boi e pés de roda de carroça.
Acervo puxado ainda pela charretinha, diversão dos filhos e netos de Ito e que, com um carro-de-boi, é uma das relíquias que Ito guarda num galpão. ''Certa vez, papai me mandou a Minas Gerais comprar uns bois. Quando cheguei aqui com o carro-de-boi ele me disse: 'Você vai lá para buscar vaca e me traz lenha, rapaz?'''. Aos 68 anos de idade, Ito olha para uma história que aconteceu há mais de 30 anos.
Para todo lado da chácara estão espalhados veículos e objetos. A primeira máquina niveladora de Tamarana, o motor que gerava energia elétrica para o distrito londrinense de Lerroville, um engenho de cana-de-açúcar tocado a cavalo, um trator Ford, 1954, entre outros; juntos somam anos de histórias. ''Pela máquina niveladora andei dando uns revólveres e carabinas. É uma salada, moço, que você nem imagina'', conta Ito.
Aliás, Ayrton também colecionava armas - ''As minhas jóias'' -, como o apego ainda reclama, mas acabou se desfazendo para atender o pedido da campanha de desarmamento. Após deixar com a Polícia Federal o bacamarte, que estava entre as 180 armas entregues e que afirma ter pertencido ao famigerado Lampião, seo Ito abre caixas e armários para envolver o visitante com narrativas frequentadas por outros personagens ilustres, como Hitler.
A manivela de um telefone do tempo em que 'se amarrava cachorro com linguiça' dá linha para seo Ito:''Troquei esse telefone da linha de trem por madeira. Dizem que Hitler passou pelo Castelo Eldorado e que essa peça era de uso dele'', conta, já com a mão noutra história, que emerge do Rio Tibagi.
Segurando um capacete de ferro, Ito diz que ele foi encontrado durante uma reforma num pilar da ponte sobre rio.''O capacete deve ter pertencido a algum operário que trabalhou na construção da ponte. Ganhei a peça de uma amigo meu'', assinala o colecionador.
Ao lado de uma balança com mais de 100 anos e que pertenceu à loja de secos e molhados da família em Tamarana, Ito mostra outro capítulo do passado através de uma mão-de-pilão, que teria sido confeccionada por índios. ''Meu avô contava que os índios trocaram a mão-de-pilão por pinga e seda vermelha'', destaca Ito, que ganhou a peça do pai. Quem vai herdar o acervo é o filho de Ito, Arlindo de Araújo.
Os olhos do visitante podem correr por um cinto de castidade, uma espada com o brasão da República, uma vitrola Triumph que ainda é capaz de tocar discos de 78 rotações, até esbarrar com o primeiro sino da igreja de Tamarana.''Esse tem história'', diz Ito, preparando os ouvidos do visitante. ''Foi na época do padre Francisco de Araruna, que disse que quem batesse mais o sino ficaria com ele. Papai pediu para ser o último a bater a coisa. Ele levou os sete filhos. Cada um batia um pouquinho. Ao chegar nas 93 badaladas, papai inteirou as 100 batidas. Então levamos o sino para casa'', lembra Ito, com tempo para lamentar o roubo de uma caixa com 131 canivetes, um dos quais recebeu a oferta de R$ 500,00, apesar de não ter valor algum.
Oferta boa mesmo Ito recebeu por um telefone que afirma ter sido utilizado na frente de combate da Primeira Guerra Mundial. Ito rejeitou R$ 5 mil no aparelho. ''O rapaz que me vendeu queria pelo telefone cem cruzeiros. Paguei a metade do preço'', lembra, abrindo um bauzinho com outra história. ''A Caixa Econômica Federal dava um cofrinho em forma de baú para contas abertas de recém-nascidos. Meu pai abriu uma para mim'', lembra o agropecuarista, mostrando o documento de número 1.163, referente à abertura da poupança, em 1939, com 50 mil réis. Peça do acervo que tem valor afetivo equivalente ao tinteiro do avó tabelião, objeto com mais de 100 anos.
Colecionador de tudo, Ito guarda com o mesmo cuidado, desde um ninho de beija-flor até os carrinhos da infância. Brinquedos que enchem de saudade um Ito que ainda se lembra dos carros de verdade modelos 1928, 1929, 1935, desfilando pelas ruas.
Memórias que o agropecuarista guarda em caixas, armários e no galpão da chácara e que estão prontinhas para despertar a qualquer momento, reacendendo até a infância de quem se acostumou a reproduzir histórias alheias com isenção - como manda a regra do jornalismo.
Ser criança na década de 80 em Londrina era ter a chance de andar na charrete do Zorro -personagem incorporado pelo artista londrinense José Boter - e que deixava o cinema e a televisão para animar festas infantis. Os dois cavalos malhados que puxavam a carroça da meninice do repórter retomam a marcha interrompida pelo tempo, andando de um lado para o outro no galpão do seo Ito, o homem que desafia o tempo, guardando-o em caixas, armários, estantes e saudade.

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