O cheiro de café verde e as lembranças do passado
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de novembro de 2001
Vânia Moreira 
Enquanto a evolução tecnológica digitaliza e globaliza o mundo numa velocidade espantosa, imprimindo um ritmo de vida frenético e estressante na maioria das cidades, há lugares que parecem ter descoberto a mágica de parar no tempo. Com exceção da energia elétrica e do telefone, alguns núcleos urbanos pequenos no interior do Paraná permanecem exatamente como quando surgiram, 30, 40 anos atrás.
Alto Alegre, uma vila localizada na zona rural de Umuarama, é assim. Tem as mesmas casas de madeira, a mesma rua de terra de quando surgiu, talvez com esperança de se tornar uma grande cidade. Na pequena vila de oito casas, uma igrejinha e um posto de saúde ainda existe uma cerealista ou ''máquina de café'', como eram chamados os depósitos particulares que compravam e armazenavam a produção abundante de café do Norte do Paraná nos anos 60 e 70.
Com o declínio da cultura, as máquinas de café desapareceram das pequenas cidades. Em Alto Alegre, a cerealista não apenas sobreviveu como se manteve intacta. O mesmo barracão com portas e travas de madeira, o mesmo balcão, as mesmas balanças manuais. Sobre as mesas do escritório, nenhum computador, nenhuma calculadora, nem mesmo a já obsoleta máquina de escrever. De diferente, apenas a quantidade de café pequena, porque a região, hoje, produz pouco. Mas o estoque está lá, embalado nas mesmas sacas de estopa de algodão usadas há 40 anos.
Para os ''pés-vermelhos'' paranaenses com mais de 30 anos que nasceram e cresceram em meio à colonização cafeeira, o cheiro de café verde já é suficiente para invocar muitas lembranças. Entrar na máquina de café de Alto Alegre, então, é como entrar numa máquina do tempo e reviver o passado.
De tão original, a cerealista deveria ser transformada em museu. Não teria muitos visitantes, é claro, porque poucas pessoas que hoje vivem na correria da vida moderna teriam tempo ou disposição para ir à zona rural rever um pedacinho do passado. Entretanto, a região estaria garantindo a preservação de um patrimônio histórico importante que sobreviveu naturalmente até agora, mas também corre o risco de desaparecer a qualquer momento.


