Agência Estado
  São Paulo – A família nunca sonhou com um filho padre. E o menino Davis Patrick Pedott imaginava um futuro em que havia casamento, filhos, trabalho bem remunerado. Passada a infância de missas aos domingos em Santa Catarina, amigos e namoradas se tornaram a ocupação dos fins de semana na adolescência, já em São Paulo. Aos 18 anos, no tempo livre entre o trabalho na empresa do tio e o cursinho pré-vestibular, Pedott olhou em volta e viu a Paróquia Nossa Senhora Aparecida. ‘‘Não contava para ninguém, tinha medo que me chamassem de careta, mas passei a freqüentar a missa todos os dias.’’
  Entre os seminaristas hoje, raras são as histórias de uma vida inteira dedicada à religião. Não há mais o seminário menor, em que os antigos primário e ginásio já eram feitos em regime de internato, com uma formação clássica que incluía aulas de latim, grego e francês. Quem decide agora ser padre toma uma decisão madura. Mesmo assim, nem sempre definitiva. Dos 16 jovens que ingressaram com Pedott no seminário da Diocese de Santo Amaro, quatro serão ordenados padres com ele no fim do ano.
  Para o catarinense, o chamado de Deus – como a teologia nomeia a manifestação da vocação – se intensificou durante as missas antes do cursinho. As lembranças do passado iam e vinham: a visita a um seminário no Sul, aos 8 anos, o terço rezado em casa, uma sensação constante de que não havia ainda experimentado a felicidade completa. ‘‘Não serei seminarista’’, repetia a ele mesmo e a quem quisesse ouvir, quando a dúvida insistia em aparecer.
  Conheceu um seminário da capital, participou de um retiro e a incerteza teimava. ‘‘Como serei padre, eu sou uma criança na minha fé?’’, questionou, numa noite de quase desespero, durante suas orações. Resolveu então que a Bíblia decidiria seu futuro e abriu o livro numa página qualquer. O texto parecia responder diretamente a ele: ‘‘Antes de ti formar-te nos seios de tua mãe, eu já te conhecia. Antes de saíres do ventre, eu te consagrei e te fiz profeta para as nações (...) Não digas ‘sou uma criança’, pois a quantos eu te enviar, irás, e tudo o que eu te mandar dizer, dirás...Você não é uma criança.’’ Ingressou no seminário em 1998, perto de completar 20 anos.
  Por volta de 600 padres são ordenados a cada ano no Brasil. Em 1990, esse número era cerca de 30% menor. O crescimento atual, que também aparece na quantidade de seminaristas – hoje são 11 mil e eram 9 mil em 1990 – pode estar ligado à maior divulgação de como identificar a vocação sacerdotal. As dioceses criaram centros vocacionais para receber candidatos, que participam de reuniões e são orientados sobre um eventual futuro como padres. A Arquidiocese de São Paulo, no entanto, a maior do País, registra apenas uma média de cinco ordenações por ano.
  A formação nos seminários está baseada em cursos superiores de Filosofia e Teologia. Se o ingressante já é formado em ensino superior, faz uma complementação filosófica, antes de iniciar a faculdade de Teologia, que dura quatro anos. Caso contrário, cursa primeiro dois anos de Filosofia.
  Para a socióloga do Centro de Estatísticas Religiosas e Investigações Sociais (Ceris), Silvia Fernandes, muitos jovens procuram os seminários porque se frustraram com mercado de trabalho. A desestrutura familiar e acesso ao ensino superior são motivos que também aparecem muito. A Igreja banca os estudos e a moradia de todos os seminaristas. ‘‘Tentamos identificar as razões sociais por trás do que eles afirmam ser o chamado de Deus’’, diz ela, que está finalizando uma tese de doutorado sobre o assunto.

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