Era a madrugada do dia 20 para 21 de fevereiro. Exatamente à meia noite, o caseiro José Batista de Moraes foi até o cercado onde estavam as ovelhas. Está vigília noturna fora combinada entre ele e Samuel depois dos primeiros ataques. ‘‘Vi que as ovelhas estavam todas calmas e voltei a dormir’’, lembra.
Mas, pouco antes das 2h00, acordou sobressaltado com ruídos surdos que vinham de fora. Caía uma garoa fina, e ele saiu da casa ainda vestindo a capa de chuva. ‘‘Quando cheguei perto do cercado, ouvi ovelhas que gemiam e um ronco estranho, um tipo de rosnado que nunca tinha ouvido antes. Tentei entrar por um dos portões, mas ele estava fechado. Dei um tiro para cima e acho que, no tempo de chegar ao outro portão, o bicho conseguiu escapar’’, conta.
Só quando acendeu as luzes daquela parte da chácara é que percebeu a extensão do massacre. Das 25 ovelhas que estavam ali, apenas duas haviam escapado ilesas. Doze ovelhas estavam mortas e outras onze muito machucadas. Todas as orelhas decepadas com precisão cirúrgica e mesmo as que ficaram vivas estavam com o maxilar quebrado, acima do focinho, por um golpe muito violento.
As orelhas de duas das ovelhas que permaneceram vivas também estavam decepadas, embora elas não apresentassem nenhuma outra marca de agressão pelo corpo. Muitas tinham as patas arranhadas, como se tivessem sido feridas por garras fortes e finas. ‘‘Pareciam cortes de navalha ou bisturi’’, conta Samuel. Algumas, ainda, apresentavam pequenas perfurações, aparentemente feitas por dentes pontiagudos, na parte traseira do corpo.
Assustado com a carnificina, o caseiro ligou para Samuel e Rosimara, que estavam em Curitiba naquela noite, e foi instruído a chamar o veterinário Luiz Cintra. O veterinário chegou em menos de meia hora e só terminou o trabalho por volta das 11h da manhã seguinte. ‘‘Os ossos dos maxilares acima do focinho de muitas delas estavam triturados. Tivemos que extraí-los’’, conta. Duas das ovelhas estavam tão machucadas que tiveram que ser sacrificadas.
O casal de proprietários chegou minutos depois do veterinário. Samuel, biólogo formado pela Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, começou a examinar ali mesmo a natureza das feridas. ‘‘Os cortes nas orelhas eram perfeitos, pareciam ter sido executados por um instrumento cirúrgico’’, lembra.
Mas apesar de toda estranheza e ainda exaustos depois de uma noite em claro, eles atribuiram o ataque a algum tipo de felino enfurecido. ‘‘Pensamos em um puma, pois eventualmente eles são encontrados por aqui’’, lembra Rosimara. Outros predadores da região foram imediatamente descartados. ‘‘Jaguatiricas não atacam ovelhas, pois são muito pequenas, e as marcas deixadas jamais poderiam ter sido feitas pelo lobo guarᒒ, garante.
Foi Rosimara quem teve a iniciativa de chamar a Polícia Florestal dois dias depois. Não era só a estranheza que a movia, mas também uma questão de ordem prática. ‘‘Se fosse mesmo um puma ou qualquer outro predador natural, teríamos que matá-lo. E não poderíamos fazer isso sem comunicar a Polícia Florestal e o Ibama’’, diz. Só então eles souberam que casos semelhantes haviam ocorrido em outras chácaras da região nas últimas semanas. ‘‘Nenhum tinha sido tão violento, mas todos suficientemente estranhos para os policias’’, conta.
Três dias depois, uma equipe de veterinários do Zoológico Municipal de Curitiba, comandada pela veterinária Ana Silvia Passarinho, chegou na chácara para analisar as ovelhas mortas. Assim como Samuel - e como o veterinário local e os homens da Polícia Florestal - a equipe não chegou a conclusão nenhuma.
Todas as hipóteses que poderiam levar a algum predador conhecido foram descartadas. Os únicos com garras e dentes suficientemente afiados para deixar marcas semelhantes são felinos. Mas felinos não mordem a traseira de suas presas como ocorreu ali - eles atacam no pescoço. Felinos, ainda, matam para se defender ou em busca de alimentos. ‘‘Nunca se soube que tenham promovido carnificinas como esta, para depois abandonar as presas intocadas’’, diz Samuel. Segundo ele, em toda a história da zoologia não há nenhum registro de qualquer animal que tenha arrancado apenas as orelhas de suas vítimas, com aquela precisão cirúrgica, para vomitá-las alguns metros adiante.
No final de março passado, Rosimara Lago leu casualmente a notícia de um jornal que relatava outros casos de mutilações inexplicáveis de animais, na região de Campinas, 100 quilômetros de São Paulo. Este caso foi acompanhado por um biólogo da Unicamp, mas a universidade não quis atendê-los. O casal foi orientado pela Unicamp a procurar o Cepex, de Sumaré, cidade próxima a Campinas.
O Cepex (Centro de Estudos e Pesquisas Exológicas) é dirigido por dois irmãos gêmeos, Eduardo e Oswaldo Mondini, e não tem nenhum vínculo acadêmico. Muito pelo contrário, dedica-se exclusivamente à pesquisa de assuntos ufológicos - objetos voadores não identificados, ETs, luzes estranhas nos céus e coisas semelhantes.
Desde o início do ano passado, o Cepex foi chamado várias vezes para investigar uma ordem de fenômenos bem mais terráqueos: o surgimento de animais mortos e mutilados em circunstâncias estranhas, no interior do Estado de São Paulo e sul de Minas Gerais, e a aparição - associada a estas mortes - de um ser desconhecido, às vezes bípede, às vezes quadrúpede, que foi batizado de chupa-cabras por causa da onda de ocorrências semelhantes verificadas em Porto Rico e no sul do México, em 1995. (P.S.M.)

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