Amadeu era o típico sujeito esquentado. Daqueles que acordam de mau humor e questionam até o cumprimento de bom dia. Naquela manhã, temperatura amena, sentia uma coisa estranha. Como se ele não fosse a mesma pessoa que se deitou de mau com a vida, bufando de raiva do colega que fez corpo mole no serviço e do chefe que cobrou agilidade.
Até a mulher, Dora, que estava num regime lascado desde que ouviu um comentário rançoso do marido, lhe parecia mais bonita naquela manhã. Decidiu tomar o café que, ''impressionante'', estava no ponto, e saborear o pãozinho que, ao contrário do engolido no dia anterior, não estava ''borrachento''.
Foi até o banheiro fazer a barba. A luz ideal refletia no espelho, permitindo observar cada detalhe do rosto. A lâmina deslizou sem causar qualquer ferimento. Até a espinha que, há semanas, teimava em incomodar o canto do nariz, havia desaparecido.
Amadeu desconfiou que o dia estava diferente. Sentiu uma vontade súbita de cantar. Para não assustar os familiares, disfarçou o desejo, assoviando baixinho a música que lhe enchia os ouvidos nos anos 60. Estufou o peito e já achava que estava bem melhor. Pensou: ''Todo mundo muda, porque eu tenho que ser mau humorado a vida toda?''
Estava pronto para sair de casa, depois de ter colocado a melhor camisa e passado a colônia esquecida no armário do banheiro. A mulher e o filho já demonstravam preocupação com o comportamento do Amadeu. Dora chegou a pensar em traição. O filho adolescente lembrou do comentário de que as pessoas mudam quando pressentem a hora da morte...
Amadeu se despediu da mulher e do filho e foi até a garagem. Foi então que ouviram o grito. Roxo de raiva, voltou para dentro da casa querendo saber quem havia feito aquilo com o carrão, o maverick verde, relíquia da família. Eduardo, o filho, ficou pálido na hora. ''Pai, achei que o senhor ia gostar. Como hoje é seu aniversário, decidi fazer a surpresa''. O carro desbotado ganhou um tom ''pilha nova'' de arrepiar.
Incrível, mas Amadeu que já havia começado o dia de maneira tão diferente decidiu relaxar. Não resistiu ao impulso e abraçou o filho. Retribuiu o olhar carinhoso da mulher e foi até a garagem. Entrou no carro e seguiu para o trabalho. Mais leve do que nunca, carregava apenas a certeza de estar dando início a uma nova etapa da vida.

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