Percorrer classificados, enviar currículos, manter a auto-estima e a esperança de conseguir um emprego. É a dura rotina de quem busca um espaço no mercado de trabalho
Quando decidiu pedir as contas no último emprego não imaginava que ali começaria o calvário enfrentado por uma legião de brasileiros. Hoje, se arrepende das oportunidades perdidas, dos cursos que deixou de fazer nos horários mais folgados, do dinheiro empregado em gastos supérfluos. Mas o que o mantém cheio de esperança de conseguir um trabalho são os filhos: o menino que em pouco tempo vai completar cinco anos e o outro que cresce na barriga da esposa.
Correr os olhos nas páginas dos jornais com ofertas de emprego, ouvir rádios e tevês e percorrer empresas atrás de alguma vaga faz parte da rotina do desempregado. No começo, olhava o calendário e fazia as contas do tempo parado. Há mais de um ano tenta uma colocação no mercado de trabalho e busca uma justificativa para a exclusão. ‘‘Não pode ser idade!’’ – pensa ele. ‘‘Aos 41 anos um homem não pode ser rejeitado no mundo produtivo.’’ Constatava nos anúncios a procura por moças e rapazes de até 25 anos. Observava as exigências por uma série de cursos que não possuía e comprovava a desvantagem.
Morador na zona sul de Londrina, ele conseguia com a mãe, que se mantinha com trabalhos manuais e a aposentadoria, os passes do transporte coletivo. Cansado de tanto deixar currículo nas empresas, ele já não suportava mais as ladainhas – justificadas, admitia – dos irmãos que se queixavam dos empréstimos nunca quitados. Já sentia o desânimo querendo tomar conta do espírito batalhador e reagia diante do otimismo da esposa. ‘‘Deus proverᒒ, repetia ela, agora adepta dos cultos evangélicos. Ele desabafava: ‘‘Roubar eu não vou, mas que dá uma revolta saber que, assim como eu, milhares de brasileiros tentam uma colocação e não conseguem nada... Perdem a esperança e vêem a vida passando em branco...’’
Dias atrás, durante um cochilo no sofá logo após o almoço, ouviu a tão sonhada proposta de emprego. Finalmente, a oportunidade para provar que não era preguiçoso, acomodado e outros adjetivos que atormentavam seu pensamento. ‘‘Papai. Papai!’’. O filho o trouxe de volta à realidade. Passou a mão no rosto e respirou fundo. Aqueles poucos minutos de sono serviram para renovar momentaneamente as forças. ‘‘Vou continuar sonhando com um emprego. Preciso ter esperança para não desistir de viver. Para não perder a dignidade.’’

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