O calvário do desempregado
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quinta-feira, 07 de fevereiro de 2002
Luka Morais Reportagem Local 
Percorrer classificados, enviar currículos, manter a auto-estima e a esperança de conseguir um emprego. É a dura rotina de quem busca um espaço no mercado de trabalho
Quando decidiu pedir as contas no último emprego não imaginava que ali começaria o calvário enfrentado por uma legião de brasileiros. Hoje, se arrepende das oportunidades perdidas, dos cursos que deixou de fazer nos horários mais folgados, do dinheiro empregado em gastos supérfluos. Mas o que o mantém cheio de esperança de conseguir um trabalho são os filhos: o menino que em pouco tempo vai completar cinco anos e o outro que cresce na barriga da esposa.
Correr os olhos nas páginas dos jornais com ofertas de emprego, ouvir rádios e tevês e percorrer empresas atrás de alguma vaga faz parte da rotina do desempregado. No começo, olhava o calendário e fazia as contas do tempo parado. Há mais de um ano tenta uma colocação no mercado de trabalho e busca uma justificativa para a exclusão. Não pode ser idade! pensa ele. Aos 41 anos um homem não pode ser rejeitado no mundo produtivo. Constatava nos anúncios a procura por moças e rapazes de até 25 anos. Observava as exigências por uma série de cursos que não possuía e comprovava a desvantagem.
Morador na zona sul de Londrina, ele conseguia com a mãe, que se mantinha com trabalhos manuais e a aposentadoria, os passes do transporte coletivo. Cansado de tanto deixar currículo nas empresas, ele já não suportava mais as ladainhas justificadas, admitia dos irmãos que se queixavam dos empréstimos nunca quitados. Já sentia o desânimo querendo tomar conta do espírito batalhador e reagia diante do otimismo da esposa. Deus proverá, repetia ela, agora adepta dos cultos evangélicos. Ele desabafava: Roubar eu não vou, mas que dá uma revolta saber que, assim como eu, milhares de brasileiros tentam uma colocação e não conseguem nada... Perdem a esperança e vêem a vida passando em branco...
Dias atrás, durante um cochilo no sofá logo após o almoço, ouviu a tão sonhada proposta de emprego. Finalmente, a oportunidade para provar que não era preguiçoso, acomodado e outros adjetivos que atormentavam seu pensamento. Papai. Papai!. O filho o trouxe de volta à realidade. Passou a mão no rosto e respirou fundo. Aqueles poucos minutos de sono serviram para renovar momentaneamente as forças. Vou continuar sonhando com um emprego. Preciso ter esperança para não desistir de viver. Para não perder a dignidade.


