'O Brasil é perigoso para mim'
O Brasil é perigoso para mim
Christian RizziGonzáles: em quarto alugadoEmilio Gonzáles decidiu morar no Brasil em 1980, quando o País vivia um período de relativo desenvolvimento e a Argentina passava por grandes dificuldades econômicas. Ele tem duas filhas brasileiras: Jorgina Lorena, de 12 anos, que mora no Rio Grande do Sul, e Elisama Paz, 6, que vive com os avós, em um sítio em Boa Vista da Aparecida.
Convertido a uma religão protestante, Gonzáles hoje é missionário no Paraguai. Em duas horas de entrevista gravada, além de relatar as violências que afirma ter sofrido, o ex-comerciante argentino falou sobre a opinião que tem do Brasil e da polícia paranaense. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Folha - Que reflexos esses episódios com a polícia tiveram na sua vida?
Emilio Hector Gonzáles - Isso provocou em mim um nervosismo insuportável. Comecei a brigar com minha mulher até que ela não aguentou e preferiu a separação. Nunca mais a vi. Acho que hoje ela mora em São Paulo. Também não posso ver minha filha (Elisama). Faz quatro anos que não a vejo, porque não tenho segurança para isso. Tive perdas econômicas, perdi a família, perdi meu revólver, que foi comprado a prestações em uma loja de Porto Alegre. Tinha registro e autorização para portar a arma. Comprei o revólver porque tinha sido assaltado em 90, no Rio Grande do Sul.
Folha - Se nada disso tivesse acontecido, como estaria sua vida hoje?
Gonzáles - Sem dúvida nenhuma, bem melhor. Eu pretendia continuar morando no Paraná até hoje.
Folha - O senhor voltou àquela região (Capitão Leônidas Marques e Boa Vista da Aparecida) depois desses episódios?
Gonzáles - Nunca mais. O Brasil é perigoso para mim.
Folha - O que o senhor pretende, ao fazer essas denúncias depois de quatro anos?
Gonzáles - Quero reclamar minha arma e meus direitos de volta.
Folha - Que imagem o senhor guarda do Brasil?
Gonzáles - Do País, preservo a mesma boa imagem que sempre tive. Também não tenho imagem ruim das autoridades brasileiras. Esses abusos são é problemas que acontecem geralmente depois de ditaduras. As autoridades não têm condições de ficar vigiando todos os policiais no país inteiro. Sou contra a delinquência e a favor da polícia. Se a segurança está ruim com a polícia, imagine sem ela. Porque um médico é aborteiro, não significa que a medicina seja ruim. Mas não concordo com os abusos de policiais. Sou obrigado a divulgar esses fatos, que prejudicam a imagem do Brasil. Mas, se quero ajudar a construir um Brasil melhor para a minha filha, que é brasileira, sou obrigado a denunciar. Senão, o Estado de Direito e a democracia acabam.
Folha - Qual sua opinião sobre a polícia paranaense?
Gonzáles - É um tema delicado. Com a maior boa vontade, não posso dizer que tenho a melhor imagem, pelo que aconteceu comigo. Mas respeito a instituição. (V. D.)





