Entrou no ônibus, linha 202, Roseira/Via Verona, que rumava para o Jardim Igapó, zona sul de Londrina, e deu de cara com um lugar vago. Sentou-se. Ônibus vazio, naquela hora do dia era raro e precisava ser comemorado. Para aproveitar melhor aquele momento especial resolveu fazer o que mais gostava: listas. Dessa vez decidiu registrar no papel as coisas que lhe asseguravam prazer. E começou.

Pôr os pés no ponto e em dois segundos ver o ônibus chegando. O bom dia simpático do motorista do ônibus. A paciência do cobrador em colar um a um os passes em folha de jornal. Bebê que ri para a gente quando está aninhado no colo da mãe. Gente desconhecida que passa e nos deseja bom dia ou boa noite com um sorriso enorme na cara. Bebê careca e com furinho no queixo. O cabelo encaracolado da filha da gente. Noite estrelada. A constelação de Órion. Lua crescente. Enxergar formas nas nuvens que passam. Enxergar nas torres das cidades os minaretes que estão distantes. Chuva na vidraça. Cheiro de terra molhada. Padaria. Chá com bolacha maisena. Pão de queijo. Arroz branco. Tudo o que vem do milho: pipoca doce e salgada, sopa e suco. Boneca de milho que a gente brincava quando era criança. A voz da jornalista Valéria Grillo, da TV Cultura, de São Paulo. Filme de diretor chinês. Ficar arrepiada da cabeça aos pés no cinema, vendo filme de suspense. Ouvir MPB na Universidade FM. As perobas na UEL. Ler Domingos Pellegrini. Tênis e meia. A parte do mapa que indica o Oriente. Chácara da melhor amiga da gente. A cara de abandonado do cachorro cocker spaniel. Dormir. Cama da gente. Acordar cedo, mas bem cedo mesmo, quando o sol ainda nem nasceu (antes da cinco, sempre). O sol das primeiras horas da manhã. Saber ler. Livros. Livraria. O silêncio da biblioteca. Conchas que a gente recolheu no mar e enfeitou a casa. Litoral no inverno, quando está bem frio e não tem quase ninguém. A cor do outono. Retrato em preto-e-branco. O banquinho e o violão do João Gilberto. Aeroporto. Avião. Destreza de piloto que consegue pousar como pluma na pista. Rir, rir muito, de qualquer coisa e sob qualquer pretexto.

De tão entusiasmada, quase desce no ponto errado. Pés na calçada, passo descompromissado, dirigiu-se para casa. Assim que ganhou a rua, ainda teve tempo e espaço no papel para acrescentar mais três coisinhas à lista. Muro alto coberto de hera. Calçada coberta de grama. O flamboyant que começou a flamejar de vermelho a rua em que a gente mora.

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