Paulo Briguet
Hoje o Bar não existe mais. Para felicidade geral dos vizinhos, que tanto odiaram turbulências e risadas noite adentro, o estabelecimento fechou as portas para sempre. Londrina é uma cidade de muitos balcões, mas a maioria deles apenas flutua na memória, com o ritmo de uma lâmpada observada por um bêbado antes do sono.
O Bar entrou em lenta agonia depois que o belo e gentil casal de donos o deixou para trabalhar em outro ramo, mais compatível com a vida familiar.
Botecos definham lentamente, como cães abandonados. Novos (porém distantes) proprietários podem até servir boa ração ao animal, mas não adianta: o apetite foi-se embora, e com ele a vida, feita de um impuro barro chamado memória.
Contudo, alegria. Não se deve chorar quando um bar morre. É preciso erguer um brinde aos céus, mesmo que não se acredite em céus. E ainda que sorriso nos lábios seja uma expressão redundante, é com ele que todos deveriam saudar novas rodadas, porque de belas coisas é feito um bar, ainda que muitas sejam impublicáveis em jornal diário.
Alguns reclamavam que o Bar era demasiado escuro. Mas os frequentadores, livres do puritanismo diurno, achavam que a pouca luz era vantagem, por tornar o local propício à elaboração da filosofia de cada um. Nas sete cadeiras que circundavam o balcão, bastava que sete boêmios apoiassem o queixo na mão, a refletir sobre as contrariedades do dia útil, para que a imagem do Pensador de Rodin fosse multiplicada até o infinito de uma semana de trabalho. Os semblantes do proprietário (que cuidava do balcão) e da proprietária (que cuidava do caixa) sempre eram receptivos às especulações filosóficas dos clientes. Se o escritor Henry Miller um dia passasse por ali, poderia gritar seu mote:
– Sempre alegre e contente!
Os boêmios, então, pagariam a ele uma cerveja, e chegariam à paz completa que tanto perseguiram (sem achar) na viagem ao fundo do copo. O Bar, em meia hora, ficaria lotado de garotas alegres e contentes.
Os antigos clientes do Bar garantem: a garota sem nome que dançava às sextas-feiras, vestida de preto, era uma complicada fonte de clarão, a soltar fiapos de Sol concentrados em milésimos de segundo. Fiat lux. Ninguém se aproximava dela durante a interminável dança da provocação. Alguns poucos arriscavam torpedos. Mas até hoje ninguém sabe se a garota que dançava às sextas-feiras existe durante o dia.
No final da tarde, um sujeito poderia estar ouvindo Mozart em casa e de repente, pela janela, perceber que o neon azul do Bar do outro lado da rua já estava aceso, um chamariz para a ceia embriagante do Logo Mais. Pouco depois que o cliente entrava no Bar, o Mozart impregnado nos ouvidos rapidamente se transformava no blues, no rock, no maracatu, na disco music e no mangue beat. Talvez fosse a mesma canção durante a noite inteira, disfarçada de ritmos diferentes ᖠa mesma ração para toda a matilha. O coro dos clientes entoava hinos trôpegos em solene desafinação. Pode parecer incrível, mas consta que desse buraco negro e barulhento saíram algumas tragicômicas, passionais e irresolvidas histórias. Os freguesas e as freguesas do Bar não costumavam perder tempo – mas torravam dinheiro e ilusões no eterno pendurar das contas.
Havia apenas um banheiro, o que gerava críticas impiedosas. Os antagonistas do Bar consideravam aquele W. C. inaceitável e anti-higiênico. Talvez tivessem razão, do ponto de vista da Vigilância Sanitária. Só não levavam em conta um pormenor: na fila do banheiro, os pacientes cervejeiros desenvolviam uma solidariedade até hoje só encontrada nas vilas que a Coca-Cola ainda não alcançou. Segundo confirmam as testemunhas, havia um rigoroso código de ética naquela fila. Se alguém estava mais apertado, lhe cediam a vez, como se deve fazer a senhoras grávidas, mulheres com crianças de colo, anciões ou portadores de deficiência.
Na conversa lacônica da fila indiana, muito se dizia, pouco se pronunciava. A passagem de belas jovens ou tipos cômicos era anotada mentalmente e compartilhada com o hum-hum silencioso que os discretos sabem emitir sem despertar a atenção alheia. Havia quem preferisse desaguar o conteúdo da noite em árvores e postes próximos, tal como ensinam os cães. Mas era bom ficar de olho na polícia e nos fiscais da prefeitura.
Uma vez atendida a Natureza e esvaziada a Bexiga, a volta era triunfal. Retornava-se à mesa ou ao balcão como quem havia atravessado bravamente a Primeira Guerra Mundial, sob os olhares aprovadores do casal que servia gentileza, sob os gritos de hurra dos companheiros da noite (com destaque para aquele que um dia foi confundido com um tal de Parapopó e todos passaram a chamar de Parapopó).
O Bar acabou. É só passar por lá e conferir, Parapopó. O balcão foi derrubado, o banheiro veio abaixo, as caixas de som emudeceram. Pedreiros trabalham honestamente para que o local vire uma respeitável empresa do setor químico. Alguns ex-clientes, iludidos, prendem-se à tola convicção que o Bar será reaberto em outra parte de Londrina. Em sonhos mal-explicados, eles desejam que o belo e gentil casal volte a acender o neon, anunciando a nova jornada do Logo Mais à Noite. Em vão, em vão.

mockup