Paulo WolfgangAlertaFernando Vieira, piloto há 30 anos: ‘O que mata é a inexperiência’Experiência é fundamental para se evitar acidentes aéreos. A afirmação é do empresário e piloto Fernando Jacinto Vieira, 47 anos, que pilota aviões há quase 30 anos - 10 deles em garimpos do Mato Grosso e Pará - e acumula cerca de 12 mil horas de vôo. Para ele, 95% dos acidentes de aviões ocorrem por falha humana. ‘‘O que mais mata é a inexperiência.’’
Fernando Jacinto já perdeu muitos amigos pilotos e já passou por alguns momentos de susto no ar. Mas nada que o impedisse de continuar voando. ‘‘Os acidentes não assustam os pilotos porque sempre acreditam que a falha foi humana e acham que eles nunca vão errar’’, observa.
O empresário cita um exemplo próprio para mostrar a auto-confiança dos pilotos. Há cerca de 14 anos, ele estava em Itaiatuba, no Pará, e voaria até Santarém, no mesmo Estado. Antes, porém, notou que havia algo de errado com o avião e o encaminhou para a oficina. O mecânico o consertou e Fernando Jacinto iniciou a viagem - sem, porém, checar se estava tudo certo.
‘‘Como só eu pilotava meu avião, costumava deixar a torneira de combustível sempre na posição aberta. Mas o mecânico, para arrumar o avião, teve que retirar o banco do piloto. Ao fazer isso, estrangulou a torneira de combustível’’, lembra o empresário. Como ele não checou tudo antes de iniciar os procedimentos, o defeito só foi notado logo após a decolagem, que é considerado um momento crítico. ‘‘Tive poucos segundos para decidir o que fazer. Resolvi retornar para a pista, o problema foi sanado e retomei a viagem.’’
Os poucos segundos que Fernando Jacinto teve é regra no ar. Nenhum piloto tem muito além desse tempo para tomar a decisão correta quando está a centenas de metros de altura. ‘‘Se ele tomar a decisão certa, sobrevive. Caso contrário, morre’’, diz o empresário. Ele ressalta que o avião, ao apresentar um pequeno defeito, ou se o piloto cismar que há qualquer defeito, deve ser submetido a uma revisão.
Para ele, os pilotos se acidentam porque têm ‘‘um segundo de bobeira nas alturas’’. Dos acidentes ocorridos em janeiro envolvendo pilotos e aeronaves de Londrina, Fernando Jacinto cita dois que ele considera que houve falha humana. O primeiro vitimou dois amigos, o empresário Antônio Piovezan e o piloto Mário Roberto Gneco, no início do mês.
O avião caiu numa área montanhosa, na região de Ponta Grossa. ‘‘O piloto jamais poderia baixar a altitude numa região de serra. Ele deve ter baixado para manter o vôo visual’’, comenta. O avião bateu contra um morro. O segundo acidente citado pelo empresário e piloto vitimou o engenheiro mecânico, empresário e piloto Abelardo Candeo Lopes, que também era seu amigo, e o co-piloto Rodrigo Scarabello. O acidente ocorreu dia 13 de janeiro, em Sorriso (MT), em virtude de um temporal.
‘‘Abelardo era recém-brevetado (habilitado). Um recém-brevetado só deve voar em condições extremamente visuais’’, diz. Segundo o empresário, uma pessoa experiente sabe, apenas ao olhar, que condições de tempo tem pela frente, se se tratam de formações leves, moderadas ou pesadas.
Ele ressalta que o piloto recém-habilitado, normalmente, é louco para adquirir experiências. ‘‘Certa vez, eu viajava na função de co-piloto com um piloto bastante experiente de Londrina, o Luiz Lacerda. Eu vi uma formação média e, louco para saber o que acontecia lá dentro, tentei forçar a entrada do avião. O Luiz olhou pra mim e perguntou porque eu não desviava daquela formação, já que o tempo estava bom do outro lado. Foi o que aconteceu, desviei e tivemos uma viagem tranquila’’, conta, acrescentando: ‘‘O avião é carrasco. Não permite experiências.’’
Para se evitar que as pessoas se arrisquem no ar, os valores de multas impostas para infrações são extremamente altas. Segundo Fernando Jacinto, a menor delas é de 1.000 Ufirs (cerca de R$ 910,00). Essa multa é aplicada, por exemplo, quando o piloto pousa num aeroporto fechado.
Também estão sujeitos a multa deixar vencer o seguro obrigatório, voar baixo ou fazer tráfego errado. ‘‘Em relação ao que o piloto ganha, as multas são altas.’’ Ele comenta que o salário de um piloto fica entre R$ 1,5 mil e R$ 4,5 mil.
Para os novos pilotos, Fernando Jacinto orienta a voar com pessoas experientes até adquirir mais horas de vôo. Para se tirar a habilitação para Piloto Privado são necessárias 40 horas de vôo, quantidade que o piloto deve ter clara que é pouca para se submeter a situações difíceis. Ele dá um conselho aos novos pilotos: ‘‘Faça só o que está habilitado a fazer e aprenda com os mais experientes.’’

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