Mesmo com o aumento da oferta de cursos universitários e programas governamentais que facilitam o acesso, o diploma de terceiro grau ainda não é acessível a todos. Para aqueles que não podem priorizar o estudo e têm que se dividir entre a universidade e o trabalho, o caminho pode ser mais difícil ainda, principalmente se esse trabalho exige maior esforço físico.
Deivid Pereira Lima Junior, 28 anos, é o segundo de quatro irmãos. Neto de carpinteiro e filho de mestre de obras, cedo começou a frequentar os canteiros das construções. ''Eu tinha nove anos e nas férias ia com o meu pai para o trabalho dele, ficava brincando por lá. Uma vez resolvi ajudar e mal aguentava com a ferramenta'', conta rindo.
Aos 14 anos, começou a levar a herança familiar a sério e passou a conciliar os estudos e o trabalho. Com o tempo, decidiu que construir casas era bom, mas ele queria um pouco mais. Foi assim que prestou vestibular para o curso de Arquitetura e hoje, no quarto ano do curso na UniFil, se divide entre azulejos, rejuntes, pranchetas e computadores.
''Eu queria mesmo era fazer Engenharia, mas o problema é que o curso é integral. Eu preciso trabalhar e por isso acabei escolhendo Arquitetura, que posso cursar à noite'', explica. ''Hoje trabalho mais com a parte de acabamentos, é um serviço mais leve, mas mesmo assim é bem cansativo e ainda preciso cumprir o estágio obrigatório, além de fazer os trabalhos escolares.''
Ele conta que algumas vezes precisa ''virar a noite'' em cima dos cadernos, para poder cumprir com as obrigações da universidade, mesmo assim, vale a pena. Até hoje só reprovou em uma disciplina. Depois da formatura, ele começará um novo ciclo na família, o de quem tem diploma de curso superior. ''Entre tantos parentes, apenas dois primos e eu estamos na faculdade. Meus irmãos não fizeram, nem meus pais.''
Ainda faltam dois anos para a formatura, mas Lima Junior já sabe qual área pretende seguir: a execução de obras. ''Não levo muito jeito para esse negócio de decoração de interiores, gosto mais de poder acompanhar as obras, coordenar os trabalhos, até porque já tenho bastante experiência nisso'', explica. Por enquanto, ele conta com a boa vontade do patrão e dos clientes, já que precisa faltar no trabalho para cumprir o estágio.
Caminhoneiro e agrônomo
Pedro Henrique Sandoli Biazon, 25 anos, está no terceiro ano de Agronomia na UniFil mas o dia a dia do campo ele já conhece faz tempo, já que durante dois anos trabalhou como tratorista em plantações. Depois, se tornou motorista de caminhão em uma cooperativa agrícola por mais seis anos. ''Sempre gostei de dirigir, então trabalhar com isso foi um passo natural.''
Na hora de escolher a faculdade que iria cursar, ele pensou em Medicina Veterinária, mas como o curso é integral, optou por Agronomia. Atualmente ele ainda trabalha como motorista, trazendo pacientes para se tratarem em Londrina mas nem por isso a rotina é menos puxada, já que precisa vir diretamente de Jaguapitã (Norte).
''Chego em casa só à meia noite. Para estudar sobram as madrugadas e também o tempo enquanto espero os pacientes. Mas os professores acabam sendo mais tolerantes, porque sabem que a gente precisa trabalhar e também estudar. Às vezes fico de exame no final do ano, mas nunca peguei dependência'', conta, se referindo a ter que refazer novamente toda uma disciplina no ano seguinte. Depois de formado, o motorista vai voltar ao campo, com projetos de agricultura de precisão.

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