Londrina – As mãos firmes seguram a caneta e desenham letras redondinhas, sem subir ou descer pelas linhas do caderno. A destreza da vendedora Dair Helena da Silva Gouveia, de 58 anos, em nada denuncia a alfabetização que tardou, mas não falhou. Foram duas tentativas até ela conseguir realizar o maior sonho da vida. "Aprender a ler é sair da escuridão", comparou, sem esconder a felicidade. Emocionada, ela escreveu uma carta de agradecimento aos professores.
As dificuldades nunca permitiram que ela estudasse. Aos 7 anos, já ajudava os pais na roça. Primeiro em Califórnia, a 65 km ao sul de Londrina, depois em Ivaiporã, no Vale do Ivaí. Aos 20 anos, casou-se e partiu com a pouca mudança para Londrina. Em seguida vieram os filhos: 13, mas apenas seis vingaram. Tudo ficou mais difícil após a morte do marido, há 21 anos. Dair compensava a falta de leitura com as contas. A magra pensão tinha de alimentar a todos.
Dair foi uma das pioneiras da Rua das Ameixeiras, no Jardim Interlagos (zona leste de Londrina). A primeira moradia foi uma casa de taipa. "Era feita com armação de bambu, bem simples, mas serviu para nos abrigar. Tenho orgulho disso", contou. E a família não foi a única a morar no casebre. Durante seis meses, a então recém-viúva abrigou uma mulher com seis filhos pequenos. "Ela não tinha para onde ir, o que eu podia fazer? Depois ela conseguiu um emprego e arranjou uma casinha", lembrou.
Em 2002, com os filhos já criados, Dair se inscreveu pela primeira vez em uma escola de educação para adultos. Ela conheceu as letras em um teclado de computador, na Associação da Criança e do Adolescente de Londrina (Acalon), na zona norte. No entanto, o longo trajeto que ela tinha de encarar sozinha, todas as noites, era penoso. A gota d’água para que ela desistisse foi um comentário de "uma pessoa letrada", de fora da escola, que ela preferiu não revelar o nome. "Ele me falou para eu ficar em casa cuidando dos meus filhos, que eu não iria conseguir ler nunca", contou.
Aquele episódio nunca saiu da cabeça de Dair. No início, pela sensação de revolta e tristeza. Em seguida, as mesmas palavras serviram de desafio. "Era uma questão de honra provar que ele estava errado, que eu podia mais. E consegui", comemorou. Desde 2010, ela frequenta o Ensino de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Municipal Maria Cândida Peixoto Salles, no Jardim Santa Fé (zona leste). Ela admite que não foi fácil. "Muitas vezes tive vontade de desistir, tive medo, mas a vontade de vencer foi mais forte".

AGRADECIMENTO
Segundo Dair, um fator foi primordial para que ela conseguisse ser alfabetizada: a dedicação dos professores. Como agradecimento, ela escreveu uma carta, reconhecendo o valor dos professores Ondina, Denise, Cida e do diretor Davi. As singelas 20 linhas de caligrafia perfeita são o resultado do sucesso da aluna e professores. "Para mim é muito mais que uma carta. Não sei nem como explicar", enfatizou. Dair contou que só entregaria a carta após a publicação da reportagem. "Já ‘saí’ na capa da FOLHA, mas essa vai ser a primeira reportagem que eu vou poder ler", orgulhou-se.
Com o universo novo que se abriu após o domínio da leitura, Dair se alegra em compreender as placas e frases espalhadas pelo bairro. Em algumas situações, nem tanto. "Tem cada barbaridade escrita nessas pichações, não é? Eu passava todo dia por elas e nem imaginava", sorriu, meio envergonhada. Depois dos livros e cadernos, o material de leitura preferido é seu instrumento de trabalho: o catálogo de cosméticos. Com as vendas, ela conseguiu ampliar a casa onde mora com dois filhos, genro e quatro netos.
A neta Ketellyn Ludmilla dos Santos, de 13 anos, é uma das maiores incentivadoras da avó. Paciente, a garota ajuda com nas tarefas. "Acho que é minha obrigação retribuir um pouco de tudo o que ela fez por nós", reconheceu. Com a conclusão do que corresponde ao 5º ano do Ensino Fundamental, Dair já pensa em galgar degraus mais altos. "Vou continuar os estudos, por que não uma faculdade?" cogitou. Segundo ela, não há idade para aprender. "Digo para várias amigas: faça um esforço e vá estudar. O mundo muda e muda para melhor", encorajou.

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