Naquela cidade de interior, todo mundo odiava o prefeito. A aversão era tamanha que era difícil de entender como o homem tinha sido eleito não podia sair na rua que era xingado; parou de ir a eventos públicos e inaugurações porque as vaias, não raro, descambavam para a agressão física. Existiam motivos para o ódio, é verdade sobravam indícios de que o prefeito estava metido em casos de superfaturamento, nepotismo, desvio de verbas. E ainda tinha fama de antipático.
Chegava novamente a época de eleições, e o prefeito levava uma lambada nas pesquisas. Um grupo de moradores de um bairro decidiu protestar contra um buraco que atormentava uma avenida há anos. Buraco com ''B'' maiúsculo, coisa de um metro de profundidade, que nunca era tapado. Decidiram fazer uma festa de aniversário do buraco e convidaram todas as autoridades da cidade. Inclusive o prefeito.
Este, com o convite na mão, perguntou aos assessores: ''O que eu faço com esta ironia?'' ''Você deve ir à festa''. ''Mas por quê? Se eles estão querendo me ridicularizar''. ''Você tem que provar que é simpático e aceita críticas. Tem que sorrir mais. Reverter sua falta de popularidade''. O prefeito concordou. Quando chegou ao local, ninguém acreditou. Ninguém vaiou. A expressão de todos era de embasbacamento. O prefeito pediu um pedaço de bolo. À primeira mordida, tinha um gosto de constrangimento, de derrota, humilhação. Condimentado com adoçante, cujo gosto não é bom nunca.
Mas o prefeito fez boa figura. Brincou com todos, riu, contou estórias. O povo parecia estar mudando sua opinião sobre o prefeito. Não era tão ruim, afinal. Ele sentia nos olhos de cada um o fascínio genuíno, a completa admiração. O gosto do bolo mudava para um sabor de vitória. A consagração final veio quando ele decidiu ir embora. Deu as costas e recebeu uma salva de palmas. Já dentro do carro, comemorou: ''Essa eleição está ganha''. Só faltava o golpe de mestre. No fim da mesma tarde, o buraco foi tapado.
Mas tem vitórias que não duram pra sempre. No dia seguinte, ao tomar o café da manhã, o prefeito levou um choque ao ler os jornais: ''Prefeito dá vexame em festa de aniversário de buraco''. Mais adiante, o texto explicava: ''Além de constranger a todos com piadas de mau gosto, o prefeito tapou o buraco na avenida, um dos pontos turísticos da cidade''. Mas e as palmas? O brilho nos olhos? Puro fingimento. O animal político acha que só ele sabe mentir. O café da manhã, súbito, adquiria o mesmo gosto daquela primeira mordida no bolo.
E o prefeito não tem mais espaço livre na agenda até o final do mandato. Não pára de receber convites para festas de aniversário de fedor de lagos, bueiros entupidos, postes com lâmpadas queimadas.

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