Astorga - Ela cantou parabéns, bateu palmas, enfiou a mão no bolo, sorriu e pediu de presente mais alguns anos de vida, mas só se for da vontade de Deus. Foi assim, com um bolinho de manhã, junto com as amigas, e outro à tarde, com os irmãos da igreja, que Maria Olívia da Silva, considerada a mulher mais velha do Brasil chegou aos seus 128 anos de idade. É isso mesmo, 128. Está no RG dela: data de nascimento 28 de fevereiro de 1880.
Em Astorga (80 km a Oeste de Londrina), cidade onde dona Maria reside - quase anônima em uma casinha humilde no distrito rural de Içara - não teve foguetório e nem comemorações especiais por conta do aniversário da munícipe que mais divulga a cidade de 24 mil habitantes mundo afora. Basta dar uma olhada nos sites de busca da Internet para constatar que essa mulher de jeito e nome simples é tema de reportagens em diversos veículos de comunicação. No entanto, as festas singelas combinaram perfeitamente com o jeito modesto e as condições de vida de dona Maria.
A mulher mais velha do Brasil teve 14 filhos - 10 naturais e quatro adotivos - porém só três estão vivos. O número de netos, bisnetos e tataranetos passa de 300. Contudo, as únicas referências familiares que lhe restaram são um neto, José Roberto, 37, que trabalha como bóia-fria nas lavouras de cana, e um filho, Aparecido Honório da Silva, 57. ''Os outros (filhos vivos) não aparecem aqui. Não querem saber da mãe'', diz Aparecido, quando questionado sobre o resto da família.
Tendo como profissão consertar sombrinhas e guarda-chuvas, ele praticamente não tem serviço. ''Tá fraco. O Paraguai dificultou tudo'', diz, fazendo referência aos produtos trazidos do país vizinho. Hoje em dia é mais barato comprar uma sombrinha nova do que mandar arrumar. Com isso, a renda familiar se resume aos R$ 380 da aposentadoria de dona Maria e ao pouco dinheiro ganho pelo neto no corte da cana. Mas não falta comida. A solidariedade dos vizinhos e do pessoal da Congregação Cristã do Brasil mantém as prateleiras abastecidas. Também foi a igreja evangélica que construiu a casa de alvenaria para a aposentada morar, nos fundos do terreno onde está a casa de madeira cheia de goteiras em que ela morou há até pouco tempo.
Voltando às festas, é algo especial participar de um ''parabéns para você'' com três dígitos em cima do bolo. É mais especial ainda quando se leva em conta que pouquíssimas pessoas chegam aos 128. Dona Maria adora doce. Foi entre uma garfada e outra em um pedaço de bolo que ela foi conversando, com alguma dificuldade é verdade, com a reportagem da FOLHA.
As respostas para cada pergunta servem de lição de vida. Sobre a festa: ''gostei, tô distraindo um pouco''. Sobre a qualidade de vida aos 128. ''já não posso ir para a roça, capinar... sinto falta de trabalhar''. O que a senhora mais gosta de fazer? ''Viver''. E qual conselho daria para os jovens? ''Não me sinto no direito de dar conselho para ninguém''.
E a prosa segue boa, com respostas curtas, porém interessantes, entre um gemido e outro de uma dorzinha aqui ou ali. Dói a bacia, a costela, a perna... ''Eu tenho fé moço, tenho fé que um médico vai me fazer sarar para eu andar, dar uma volta, trabalhar'', resmunga dona Maria com ânimo.
No entanto, apesar do corpo franzino - ela pesa aproximadamente 30 quilos -, da fraqueza constante e das complicações a cada gripe, a saúde está relativamente boa. De remédio mesmo, fora os fortificantes e laxantes, dona Maria só toma uns comprimidos para insuficiência cardíaca. Mas o coração da centenária parece firme. Ontem, em um teste rápido feito pela reportagem ele pulsava a 64 batimentos por minuto.
Estamos falando de um coração, que com essa frequência que pode até ser considerada baixa, já pulsou, ao longo de tantos anos, mais de quatro bilhões de vezes. Porém, até há uns dois meses, a saúde de dona Maria era melhor ainda, segundo Edna Pereira dos Santos, a senhora que recebe R$ 150 por mês para cuidar, de domingo a domingo, da cidadã mais experiente do Brasil. Quem paga o salário é a Associação de Proteção à Maternidade, Infância e Família (APMIF) de Astorga.
Com o fim da festa, é hora de dar tchau e esperar que essa ilustre senhora chegue aos 129. ''Deus abençoe, te dê saúde e felicidade'', ela diz na despedida. Amém, dona Maria.

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