Juarez é um daqueles andarilhos que a cidade inteira conhece, mas ninguém sabe dizer ao certo quem ele é. Atrapalha o trânsito, irrita os comerciantes e incomoda os clientes de bares e lanchonetes. Mas não faz mal a ninguém e, assim como aparece, some de repente. E assim como some, de repente volta.
Juarez não conversa com ninguém. Mal pede comida e dinheiro. Por isso mesmo, ninguém sabe de onde ele veio. Se bem que há quem jure que Juarez é de família rica e aquelas histórias de sempre. Certo mesmo é que para encontrar Juarez basta ir à noite ao coreto da praça. É lá que ele dorme. E onde ninguém lhe incomoda.
O andarilho não é do tempo que o coreto era ponto de encontro da cidade. Nunca viu um comício no local. Muito menos algum discurso inflamado de algum governador. A banda tocando por ali, então, nem pensar. Essas são outras épocas. Para Juarez, o coreto sempre foi um canto da praça reservado para ele. Só para ele.
A Polícia não passa por ali. O guarda da praça até sabe que Juarez usa o coreto como quarto, mas não se importa. Ninguém usa o coreto pra nada, mesmo! Além do mais, o andarilho não faz outra coisa no local senão dormir. E roncar muito. Como não há vizinhos por perto, tudo bem.
Ao amanhecer, Juarez é acordado pelo sino da igreja. Isso lá pelas 6 horas. Ele se levanta logo e sai sem destino. Assim, quando a cidade acorda, o coreto já está outra vez sozinho em seu canto. Juarez está longe, pedindo café em alguma lanchonete. Aliás, ninguém pensou no pobre andarilho quando a prefeitura falou em demolir o coreto.
Argumentaram que o coreto não serve para mais nada, como se Juarez não existisse. Puro preconceito. Ninguém usou tanto aquele cantinho como ele. Nem a banda nos bons tempos em que as famílias se reuniam na praça. O andarilho, porém, parece que já pressentia alguma coisa. Pudera. Outro dia um pedaço do forro caiu sobre a cabeça dele.
Juarez não se machucou, mas o copo de café que havia ganho no bar da esquina se esparramou pelo chão. Talvez seja por isso que, pela primeira vez, Juarez não passou a noite no coreto. Foi visto ontem dormindo embaixo de um viaduto. Foi salvo pela mais nova obra da cidade. Já o velho coreto, coitado, não serve mais nem pro Juarez...

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