O amansador de feras
Uma troca de olhares, e a fera está dominada. Este é o segredo do trabalho de José Ferreira de Oliveira, cabo do Corpo de Bombeiros, que faz adestramento de cães há cerca de 15 anos e já salvou 12 famílias - ou mais - da ira de seus bichinhos. Na última segunda-feira ele interrompeu um repouso forçado por problema em uma das pernas para livrar uma mulher grávida de nove meses do ataque de um pastor alemão. Em poucos minutos Ferreira já conseguia obter do cão sinais de obediência, e algum tempo depois, como de costume, voltava para casa acompanhado pelo cão.
De fevereiro para cá, oito animais considerados problemáticos passaram a morar no canil que o cabo mantém em sua casa, no Conjunto Vivi Xavier, na zona norte. E engana-se quem acha que só pittbull e rottweiler atacam perigosamente. Há pouco tempo, um vira-lata furioso simplesmente impediu que a família saísse de casa pela manhã. Ouvindo a informação pelo rádio, lá foi o cabo Ferreira prestar socorro. Hoje o animalzinho temperamental é mais um que mudou de endereço. Convivendo com três cães pastor alemão capa preta, um rottweiler, um bassê, um mestiço de fila com rottweiller e mais um vira-lata, o cachorro nunca mais causou transtornos.
SensibilidadeA receita de Ferreira para vencer cachorros tidos como incontroláveis é segurança e uma boa dose de carinho, com gestos, comida e água na hora certa e passeios.Uma das principais causas de agressividade no animal é o tratamento incorreto. Tem muita gente que bate na cabeça de filhotes que fazem bagunça dentro de casa, tornando estes bichos muito agressivos. O cão mal treinado pode ser muito perigoso, ensina Ferreira, que aprendeu as noções básicas de adestramento nos canis da Polícia do Exército, em Brasília, e do 5º Batalhão, em Londrina. Ele diz que nunca precisou bater em um cachorro, por mais bravo que fosse. Para o adestrador, um olhar que transmita carinho e confiança vale mais do que tudo.
Além do olhar, é de fundamental importância o tom da voz. As pessoas devem conversar com o animal sempre à mesma altura, impondo respeito através da segurança da voz. Todos os dias, antes de sair de casa, converso com cada um deles e faço um carinho. Mesmo ficando presos, eles precisam manter contato com a família. Além do carinho, o cabo jamais deixa faltar água, comida e muita sensibilidade para perceber se o bicho está doente, agressivo ou em agonia.
Nestes anos todos amansando feras, Ferreira aprendeu que a convivência com o animal deve ser diária, o que permite conhecer um pouco mais da natureza de cada um. Aliás, grande parte do sucesso do trabalho do adestrador está na paciência com que observa o comportamento dos cães. Chega a fazer relatórios quando vai dar um dos cachorros para alguém. Ciente da responsabilidade que tem mãos, considera um crime entregar um cão feroz a uma família que não tenha conhecimento do assunto e dos costumes do animal.
Depois que pega o jeitão dos bichos, Ferreira consegue torná-los verdadeiros cordeirinhos. Que o diga a cachorra Babalu, uma fêmea de pastor alemão que teve que ser doada pela dona por ter se tornado extremamente agressiva em função do ciúme de outra cadela da casa. Menos de um mês depois, ela obedece a todos os comandos de Ferreira. É uma amor de cachorrinha, garante ele.
Com exceção dos dias em que está de plantão no Corpo de Bombeiros, onde exerce a função de motorista, o cabo cumpre a rotina sagrada de levantar às 6 horas para levar os cães para passear. Cada um tem direito a um passeio de 30 minutos, e na volta, cansados, todos ficam mais calmos. Tanto que quando um deles está muito agressivo e desobediente, a saída é levá-lo para uma longa caminhada. Assim, tentando compreender a natureza de cada um e suprindo as suas necessidades, o adestrador tenta mudar o comportamento dos cães-problema.
Mas nem tudo é tão simples como parece. Ferreira faz este tipo de trabalho por paixão, e só cobra quando é procurado para adestrar cães de guarda. Neste caso, o preço é de R$ 110,00 por mês se a residência ficar na região dos Cinco Conjuntos, e um salário mínimo (R$ 130,00) se for em regiões mais distantes. Em média, leva três meses para amansar a fera. Ele diz que nunca trabalhou com um pittbull, mas tem certeza que daria conta do recado.
Os cães que são levados para a casa da família Ferreira são alimentados com quirera, fubá e retalhos de carne. O canil ocupa toda a lateral da casa, onde seria o quintal para as três crianças brincarem. Eu penso em um dia conseguir fazer um rolo desta casa com uma chácara, onde eu tivesse mais espaço para o canil, sonha Ferreira, afirmando que se tivesse condições, cuidaria de um número muito maior de cachorros que, tratados incorretamente, acabam se transformando em problema para as famílias e para a própria sociedade.
A mulher de Ferreira confessa que às vezes se irrita com tanta dedicação do marido aos cães. Sem falar na preocupação, quando ele sai, de mãos limpas, para prestar socorro. Ele já levou algumas mordidas, e eu tenho medo que ele seja atacado, porque se um cachorro muito bravo pegá-lo pra valer, ninguém mais vai poder socorrer, preocupa-se.
Ferreira sente-se seguro. Munido de um cambal (enforcador feito com um cabo de enxada e corda), ele afirma que nunca foi vencido por um animal, por mais feroz que fosse. Para os cães que apresentam apenas natureza forte, ele costuma usar um enforcador de ferro. E para os filhotes, um enforcador comum, de corrente. Só não usa o de garra, que apresenta o risco de soltar.
PERFIL
Nome:Paulo WolfgangDomínioJosé Ferreira de Oliveira se dedica a amansar cães agressivos há 15 anos: em poucos minutos o animal fica sob controleSilvana Leão





