O alemão que plantou o verde na terra vermelha
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quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Entre cicas, palmeiras, carvalhos, jambolões, magnólias e tantas outras espécies nativas e exóticas vive o paisagista alemão Erich Franz Kuhnlein. Coletar sementes, preparar mudas e transformar paisagens mortas em cenários de muito verde e vida é a rotina diária do profissional que foi responsável pela arborização de ruas, parques e estradas de Londrina.
Formado em paisagismo na Alemanha, onde já trabalhava com plantas desde os 14 anos, seo Erich partiu do velho continente para a América aos 22 anos. Aportou em Santos em 1952 e depois de trabalhar um ano em São Paulo, veio conhecer terras vermelhas a pedido do então prefeito Milton Menezes.
Por ser mineiro, o ex-prefeito conhecia o projeto de arborização de Belo Horizonte e já tinha idéia das plantas que queria cultivar em Londrina. ''Ele pedia os nomes das árvores nas ruas e fez uma lista, da qual selecionamos algumas espécies. As primeiras 400 árvores vieram de trem, de São Paulo, e demoraram dez dias para chegar. Quando abri o vagão, vi que metade tinha se queimado na viagem'', recorda.
O prefeito pediu que ele desse um jeito e plantasse o que sobrou e depois voltasse para São Paulo para buscar mais árvores. Seo Erich ganhou até um caminhão de lixo da Prefeitura para transportar os exemplares de sibipirunas. Também foi ele quem idealizou o primeiro horto florestal municipal, localizado em frente ao Hospital Universitário, na Zona Leste.
Anos depois, a área foi loteada. ''Onde era o horto, arrancaram tudo'', lamenta o paisagista, que num passeio recente pelo bairro, também não encontrou mais a casa onde morou quando chegou na cidade, aos 22 anos.
Mudas de plantas exóticas, como exemplares de carvalhos portugueses, palmeiras e pinheiros alemães, foram trazidas de navio pelo imigrante. Terceiro produtor de mudas ornamentais do município - quando ele chegou os japoneses Takeshima e Ymagawa já trabalhavam em Londrina - seo Erich trouxe sementes de árvores européias escondidas entre as roupas, nas malas de viagem. ''Naquele época ninguém revistava nada.''
''Ninguém sabia que a grevilha crescia tanto nessa terra. Sabíamos que era uma árvore de pequeno porte, boa para sombra, mas aqui virou um monstro'', brinca o paisagista.
Amante do calor, o alemão não teve dificuldade em aprender a língua. Mas relembra uma história engraçada dos tempos em que ainda confundia os idiomas. ''O pai de um amigo tinha morrido e eu queria ir no enterro, mas não sabia o que dizer. Perguntei para uns amigos como é que se davam os pêsames, e do jeito sacana que só os brasileiros têm, eles disseram que eu devia dizer - meus parabéns. Cheguei parabenizando todo mundo e ninguém entendeu nada.''
Aqui em Londrina, o alemão da Bavária conheceu dona Lindinalva, filha de nordestinos e neta de italianos. Conta a lenda, que ele plantou três árvores em frente à casa dela na tentativa de conquistá-la. ''Não é isso; é que como eu plantei as árvores da cidade, plantei também as da rua dela'', desconversa. Juntos há 50 anos - eles acabaram de comemorar bodas de ouro - o casal tem cinco filhos. Três deles seguiram os passos do pai.
Nas duas décadas em que passou a trabalhar por conta própria, seo Erich já treinou muita gente na arte de construir jardins. Hoje, ele reclama da concorrência. ''Eles aprendem tudo e depois vão embora. Mas ao invés de abrirem uma loja em outra cidade, ficam por aqui para me atrapalhar'', opina.
''Até meu filho, que é arquiteto, abriu uma empresa própria só para ganhar mais dinheiro'', diz o paisagista, que gostaria que os filhos mantivessem a produção que hoje ocupa uma chácara de um alqueire às margens do Ribeirão Cafezal e outra propriedade de seis alqueires na Warta. ''Fiz tudo para que eles seguissem, tá tudo montado, temos um estoque de plantas que nem sei.''
''Meu pai tinha lavoura na Alemanha e como éramos em oito irmãos, quando chegou a idade de me virar ele me disse para escolher uma profissão e eu resolvi estudar paisagismo'', relembra.
Fazendo sempre ''qualquer negócio'', seo Erich trabalhou com paisagismo de alta escala antes de iniciar o projeto de arborização de Londrina. Além das ruas, ele também preparou arranjos em estradas do Norte paranaense. ''A última vez que passei pela estrada, as árvores tinham sumido'', lamenta.
Para o paisagista, o corte de espécies exóticas, tão defendido pelo Município, é uma grande besteira. ''É tudo uma questão de poda, de tratamento da árvore. Se a Prefeitura soubesse que uma árvore é capaz de alimentar até duas pessoas com oxigênio, não destruiria tanto.''
Apesar das mais de 150 espécies diferentes de árvores e plantas ornamentais que têm na chácara, seo Erich ainda prefere a cica que ganhou de um amigo japonês. ''Já me ofereceram R$ 6 mil por ela, mas eu não vendo'', diz, categórico. O amor do alemão por plantas é tanto, que ele chegou a roubar uma muda de palmeira enquanto passeava por Nantes, na França. ''Quanto mais lento o crescimento da planta, mais rara, e cara ela é'', ensina.


