O acrobata no caos
Nelson Capucho
Cético e ao mesmo tempo dependente de previsões, o homem do fim de milênio luta para não despencar no moderno poço das incertezas
Será que a intrigante arte da profecia já não desfruta do mesmo prestígio nem desperta o deslumbramento de outros tempos?
Meses atrás, a famosa vidente Mãe Dinah foi processada por uma cliente que desembolsara razoável quantia em troca da antecipação dos números sorteados em alguma loteria do Cassino Brasil. Mas nem sempre os casos de previsões furadas terminam diante do juiz ou do delegado. O que, convenhamos, é uma prova de bom senso coletivo: se todos os autores de palpites infelizes, vaticínios tortos e prognósticos absolutamente equivocados tivesem de passar uma temporada atrás das grades, seria necessário requisitar um continente para servir de presídio. Nesta penitenciária universal, em meio aos charlatães que proliferam em todos os tempos, certamente encontraríamos algumas das melhores cabeças da história da humanidade. Do ficcionista Júlio Verne que acertou mais do que errou, é verdade ao big-nerd Bill Gates.
Para o ensaísta François-Bernard Huyghe nunca fomos tão dependentes do futuro, nunca consumimos tantas tramas antecipatórias, mas, ao mesmo tempo, nunca fomos tão céticos, tão cientes de viver a época das incertezas. Não sem alguma desordem de idéias. De certa forma, somos acrobatas supersticiosos tentando não despencar no caos da modernidade.
Em seu livro Profetas do Erro (Ed. Ática, 1997), Huyghe lembra que as previsões de ontem mostravam a família do novo milênio no seu foguete, papai e mamãe estudando as estrelas em benefício da ciência, enquanto as três crianças brincavam com um cão-robô. Ora diz o ensaísta francês , o erro não foi apenas imaginar desenvolvimentos da astronáutica e robótica que ainda não chegaram; foi não ter previsto que neste fim de século os casais com emprego e com três filhos se tornariam uma raridade estatística.
Já em 1974, Georges Elgozy fez um pequeno balanço das promessas não cumpridas, comenta Huyghe. Para 1970, por exemplo, alguém previra a dessalinização da água do mar a baixo custo, a utilização militar de gases que persuadiriam sem matar. Deveríamos dispor de automóveis não poluentes, computadores para ligar residências aos magazines ou gerir as tarefas domésticas e de alimentos sintéticos nos supermercados. Em 1976 deveríamos ter à disposição a TV e os filmes holográficos (em três dimensões) e automóveis elétricos estariam circulando nas ruas. Em 1977 haveria prevenção eficaz para o câncer e calçadas rolantes por toda parte. Quanto ao ano 2000, tanto a literatura de ficção como as previsões sérias indicavam que estaríamos muito mais avançados nas pesquisas espaciais e na robótica. Sem falar em carros voadores ou pequenos foguetes atados às costas que nos permitiriam ir de casa ao trabalho sem as dores de cabeça do engarrafamento no trânsito. Nenhum profeta certamente imaginou que o homem do novo milênio ainda estaria às voltas com o combate a doenças medievais como dengue ou cólera.
Errare humanum east. Santos Dumont previa que os balões substituiriam as ferrovias e o genial H.G. Wells não acreditava que transporte aéreo um dia fosse bom negócio; Herman Kahn, um dos principais futurólogos do século, nunca mencionou o possível desmoronamento da União Soviética; e George Orwell imaginou um mundo bem mais sombrio que o de hoje em seu livro 1984.
Assim, se profissionais gabaritados, economistas, experts, consultores especializados e outros sabichões juramentados pisam no tomate, por que condenar o seu astrólogo predileto por assegurar que na tarde de terça-feira um príncipe (ou uma princesa) surgirá todo faceiro(a) e convidará o(a) leitor(a) para um passeio de helicóptero-ainda que uma chuva tempestuosa esteja desabando sobre a cidade? Pensando bem, astrólogos são mais inofensivos que economistas e dispõem de menos espaço nos jornais para publicar suas previsões. Prever, preconizar, advinhar, antecipar tendências. Somos todos adivinhos, escreveu Voltaire, acrescentando: mas por um motivo qualquer, os profissionais se enganam mais que as pessoas comuns.
Talvez hoje a maioria da população mundial já receba as profecias atemorizantes dos filhotes de Nostradamus do mundo econômico mais como objeto de exercício lúdico do que propriamente como um sinal dos céus. Entretanto, no caldeirão dos espertos - a Bolsa de Valores - onde um boato pode ter efeito tão devastador quanto o de uma bomba, as profecias de gurus teleguiados muitas vezes fazem a alegria ou a desgraça de investidores e até mesmo de governos. Em caso de governos no vermelho, não raro, o cidadão que não tem a menor idéia do que significa índice Down Jones acaba pagando o pato.
No entanto, é preciso destacar: nem sempre trata-se de catastrofismo diletante. Em algumas situações, fica tão evidente que a economia está tomando o trilho errado, que a impressão que se tem é que alguns países gostam de viver perigosamente.
Libertação do trabalho
Há e sempre houve pitonisas para todos os gostos e mercados. Como são inegáveis os avanços tecnológicos e científicos, notadamente no último século, nada mais natural que se preveja maravilhas nestes campos. O robô doméstico, por exemplo, que existia na literatura de ficção muito antes de a família Jetson aparecer na TV (aliás, antes mesmo de se inventar a TV), continua sendo apenas uma possibilidade. Comparado à energia nuclear e à clonagem, o escravo-autômato certamente desperta polêmica insignificante. Mesmo neste momento em que o desemprego atinge níveis insuportáveis e a ameaça de ficar sem trabalho aparece como principal motivo de angústia dos brasileiros segundo pesquisas recentes.
A ensaísta francesa Viviane Forrester, com seu O Horror Econômico (Editora Unesp, 1997), é uma das mais destacadas vozes em defesa da dignidade usurpada dos desempregados nesta travessia desastrada e o sociólogo italiano Domenico de Masi aparece como um dos pensadores mais instigantes a respeito desta questão. Quando comparada à libertação da escravidão, que caracterizou a Idade Média, e à libertação da fadiga, que caracterizou a sociedade industrial, a libertação do trabalho, que irá caracterizar a sociedade pós-industrial, delineia-se com traços peculiares, escreve De Masi em Desenvolvimento Sem Trabalho (Editora Esfera, 1999). Para o sociólogo, há diferença entre desemprego e libertação do trabalho, uma vez que a segunda opção admite formas de vida muito mais livres e felizes. Posto que as máquinas se incumbirão de quase todo o trabalho físico, assim como de boa parte do trabalho intelectual do tipo executivo, o ser humano irá guardar para si o monopólio da atividade criativa que, por sua própria natureza, dá muito menos margem que a atividade industrial para a alocação de tarefas e para a divisão entre tempo de trabalho e tempo livre.
De Masi é otimista. No campo da tecnologia há muitos outros, prevendo maravilhas que aumentarão o conforto, reduzirão o sofrimento e prolongarão a vida do homem. Mas ainda que os profetas otimistas estejam com a razão, infelizmente suas previsões não são para todos os seis bilhões de habitantes do planeta. A realidade para um cidadão norte-americano das grandes cidades é bem distante daquela vivida por um morador do sertão nordestino, por exemplo. Esta disparidade entre as condições de vida dos semelhantes obviamente poderia ter sido reduzida se o Homem tivesse dado ao milênio uma orientação realmente humanista. Ainda hoje, incalculável contigente de habitantes do chamado terceiro mundo não tem sequer acesso ao saneamento básico. Neste fim de milênio, parece incrível que uma nação apresente indicadores tão cruéis como o de 170 recém-nascidos mortos em cada mil, e de apenas 31 por cento da população com acesso a água potável! São números de Angola, um dos países mais ricos em recursos minerais do continente africano, mas envolvido em uma interminável guerra civil.
Novas bandeiras
O progresso com tudo o que carrega de bom ou ruim normalmente chega antes aos países imperialistas, expansionistas e colonizadores. A razão é óbvia. Os recursos para a pesquisa, os laboratórios melhor aparelhados e alguns dos cérebros mais privilegiados estão no centro dos impérios. As colônias costumam ficar com os papéis de financiadoras indiretas de projetos através do extrativismo de suas riquezas naturais e do sacrifício da sua população ou de fornecedoras de matéria-prima com o franqueamento de sua biotecnologia. Numa segunda etapa, os pobres colonizados precisam dar mais sangue, suor e lágrimas (ou dinheiro) para ter acesso à tecnologia que ajudou a custear.
Os países excluídos vão saltando lentamente de status pobres-subdesenvolvidos-terceiromundistas-em desenvolvimento-emergentes, mas permanecem vinculados a um sistema externo manipulado pelos países ricos-muito ricos-mais ricos ainda que parece significar paradoxalmente sua sobrevivência e sua desgraça. Uma grande parte dos habitantes do planeta paga impostos (o conceito aqui transcende o verbete de dicionário) para que sócios de um pequeno clube mantenham o direito de acesso preferencial às novidades. Além disso, a concentração de renda em países do terceiro-mundo impede que um número gigantesco de pessoas se beneficie de importantes avanços da ciência.
Mas a globalização informatizada não vai resultar no fim das fronteiras ou, ao menos, do nacionalismo? E isto é bom? Clinton ou Gates, qual Bill é realmente o mais poderoso? São algumas indagações desta travessia de milênio. O sonho de John Lennon parece estar se concretizando de uma maneira nada poética. Bancos, redes de supermercados e empresas de telecomunicações já se aproveitam da mundialização. O clube privé agora é virtual. A matriz tem controle das filiais on-line em tempo real. O inimigo não tem mais uma bandeira. A menos que estejamos todos definitivamente ensandecidos e passemos a guerrear em defesa das bandeiras dos cartões de crédito.
As redes econômicas privadas, transnacionais, dominam cada vez mais os poderes estatais, diz Viviane Forrester. Muito longe de ser controladas por eles, são elas que os controlam e formam, em suma, uma espécie de nação que, fora de qualquer território, de qualquer instituição governamental, comanda cada vez mais as instituições dos diversos países, suas políticas, geralmente por meio de organizações consideráveis, como o Banco Mundial, o FMI ou a CDE, alerta Forrester.





