O acidentado queria salvar seu moleque. Era um cachorro
Apesar de conviver no dia-a-dia com ocorrências nada agradáveis, os socorristas do Siate tentam manter o bom-humor e a paciência. Sem muito esforço, eles contam histórias curiosas e engraçadas. O socorrista Antonio Carlos Pereira dos Santos lembra de um acidente de trânsito em que a vítima pediu para ajudar o seu moleque, que estava dentro do carro.
Fomos até o carro, ficamos procurando um garoto e nada, lembra. Mais tarde, os socorristas descobriram que o moleque era um cachorro que, na confusão, deve ter fugido.
Essas histórias, segundo os socorristas, servem para descontrair e fazer esquecer um pouco as ocorrências graves e trágicas. Antonio Carlos Santos lembra que um dos acidentes que mais chocou aconteceu há alguns meses, na PR-445 (rodovia Celso Garcia Cid), onde um bebê de quatro meses morreu. Criança é o que mais choca, revela.
Na opinião do socorrista João Eduardo Carvalho Rodrigues, para não se estressar, é preciso se desligar de tudo quando sai do trabalho. Se levar serviço para casa, complica, ressalta. Tem que curtir a família, o futebol, completa.
Justamente para ajudar a reduzir o stress, uma turma de socorristas passou há poucos meses por uma reciclagem feita pela psicóloga Devanira Domingues. Ela observa que os socorristas apresentavam vários pontos de stress, como insônia e reação, mesmo fora do trabalho. Muitos contaram que estavam em um restaurante e quando escutavam a cigarra (sirene), tinham a reação de prontidão, relata.
A psicóloga, que participou do curso de formação dos socorristas, explica que os eles até sabem lidar com o perigo e a morte. Muitos contaram que quando atendem vítimas com risco de morte, se sentem fortalecidos para socorrer e não deixam o emocional tomar conta, observa. No entanto, segundo ela, depois do atendimento, vem a descarga emocional e o stress.
Durante a reciclagem, a psicóloga disse que era importante reconhecer os limites de cada um. Eles precisam ter a humildade e a responsabilidade de perceber que estão no limite e acionar o colega para prestar atendimento em seu lugar, alega. Segundo ela, se os socorristas extrapolarem o limite, haverá perda na qualidade e na produção do trabalho.
Para combater o stress, Devanira Domingues sugere aos socorristas que pratiquem esportes, mesmo dentro do quartel, e tenham outras atividades de lazer, como a leitura. Ela defende ainda um acompanhamento psicológico mais frequente (uma vez por mês) para que os socorristas possam, pelo menos, discutir o stress e receber orientações de como lidar com as situações angustiantes.
Durante a reciclagem, a psicóloga diz ter notado que os socorristas gostam muito do que fazem. Eles têm um grande amor e uma dedicação tremenda. São incansáveis e a máquina propulsora deles é este amor, afirma. Eles são realmente anjos pelo que fazem, completa. Na sua opinião, o fato de a população reconhecer o trabalho do Siate serve como motivação aos socorristas para que superem o stress e o desgaste emocional e físico.





