O 193 não pára de tocar. É a rotina de salvar vidas
O 193 não pára de tocar. É a rotina de salvar vidas
É quase uma hora da madrugada quando toca o telefone do Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma e Emergências (Siate). Uma pessoa liga para avisar que um motoqueiro se acidentou sozinho no jardim Marumbi (zona leste). A sirene é acionada e imediatamente uma ambulância sai do quartel dos Bombeiros (na rua Tietê, centro), onde funciona a central do Siate, para atender a ocorrência. Atrás vai outra ambulância menor, com o médico, já que o caso é considerado urgente - a vítima não usava capacete e estaria inconsciente.
Depois de percorrer cerca de cinco quilômetros em sete minutos, os socorristas do Siate já estão atendendo a vítima. O motoqueiro não sofreu ferimentos graves - estava consciente, ao contrário do que o informante disse. Ele teve sorte, porque poderia ter batido a cabeça no meio-fio, mas acabou caindo no canteiro central, revela o médico Humberto Bottura, que atendeu o caso.
Como o estado da vítima não era considerado grave, os primeiros socorros são realizados dentro a ambulância. Se houvesse uma fratura mais importante ou uma parada cardiorrespiratória, por exemplo, todo o procedimento seria feito no local do acidente, explica.
A vítima apresenta sinais que está alcoolizada. O motoqueiro, mesmo praticamente imobilizado na maca, estava agitado e ficava se movimentando. Pacientemente, os socorristas conversam com ele , tentam acalmá-lo enquanto fazem os procedimentos necessários. Eles procuram sempre conversar com a vítima porque, geralmente, ela fica nervosa, afirma Humberto Bottura. É comum a pessoa ter crises de choro.
Após levar o motoqueiro até o hospital de plantão e repassar ao médico as informações sobre o paciente e seu estado, a equipe do Siate volta ao quartel à espera de novas ocorrências, que não demoram a acontecer. O início da noite foi considerado tranquilo pelo Siate, mas durante a madrugada os casos começam a aparecer. Um motoqueiro que bate na árvore, agressão física, dois veículos que se chocam, entre outros casos.
Acidentes de trânsitos representam mais da metade das ocorrências atendidas pelo Siate, que completa hoje um ano de funcionamento em Londrina - em Curitiba, o serviço existe desde 1990. Mas equipes do Siate já foram chamadas também para ajudar em casos de quedas de pessoas, agressão física, acidentes domésticos, problemas clínicos e até socorro a gestantes, apesar de o serviço ter sido criado para atendimentos a traumas que requerem transporte especializado.
Segundo relatório feito pelo comando do Siate, em uma ano de funcionamento (dados contabilizados até o final de semana), foram registradas 4.282 ocorrências. São cerca de 15 atendimentos por dia, de segunda a quinta-feira, segundo o relações públicas do Corpo de Bombeiros, tenente Ezequias de Paula Natal. Nos finais de semana, o número dobra e os horários de maior pique são na sexta-feira à noite, no sábado depois das 10 horas e no domingo após as 14 horas. Nestes períodos, é comum a equipe ficar fora da central durante horas seguidas, atendendo várias ocorrências. A área de abrangência do Siate é a região metropolitana de Londrina.
Além da rapidez com que chega aos locais de ocorrência - a média é de seis minutos - o Siate é conhecido também pela sua eficiência. Apesar de não existirem estatísticas, o médico do Siate, Mauro Roberto Basso, observa que o serviço salvou muitas vítimas e em outras preveniu que houvesse lesões mais graves.
O Siate é um serviço mantido em conjunto entre o Governo do Estado e Prefeitura. A equipe é composta por 47 socorristas (bombeiros que receberam treinamento, fazendo um curso de 560 horas), 10 médicos (todos concursados), duas enfermeiras e quatro auxiliares de enfermagem. Na opinião de Humberto Bottura, um dos grandes motivos do sucesso do trabalho desenvolvido pelo Siate local é a integração entre os bombeiros e médicos.
Ao todo, são quatro ambulâncias pequenas (com capacidade para atender uma vítima), uma ambulância grande (para prestar atendimento a duas pessoas) e uma Ipanema, ambulância que, geralmente, transporta o médico. As cinco primeiras ambulâncias, segundo tenente Natal, são totalmente equipadas e funcionam como uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) móvel.
Tenente Natal explica que no segundo semestre deve acontecer a formatura de mais uma equipe de socorristas (25 no total). Está prevista também a chegada de mais ambulâncias. Mais importante que ampliar o serviço, na sua opinião, é fazer um trabalho junto à população para prevenir acidentes, reduzindo, desta forma, o índice de ocorrências.
Trabalho de socorro
começa pelo telefone.
É preciso ter calma
O trabalho do Siate começa pela triagem feita na central pelos telefonistas e médicos que estão de plantão. Eles verificam a gravidade da situação e se o caso é mesmo para o Siate. O médico conversa com a pessoa que liga, toma informações sobre o estado da vítima e verifica se há necessidade de deslocar a ambulância. Ele acompanha a equipe em cerca de 20% dos casos, quando a ocorrência é considerada grave e urgente.
O médico do Siate, Mauro Basso, ressalta ser muito importante a pessoa que liga saber passar os dados corretos. Ele explica que o informante, antes de telefonar, tem que se certificar do que está acontecendo. Quando ligar, é preciso tentar manter a calma porque se não a gente não consegue extrair nenhuma informação, avisa. Ele observa que é necessário passar os dados básicos, como o tipo de ferimento que a vítima sofreu, se ela está sangrando, conversando ou se consegue se locomover.
Para as pessoas que testemunham uma ocorrência, a equipe do Siate ressalta ser importante tomar o cuidado de não mexer na vítima. É muito perigoso tirá-la de dentro do veículo acidentado, por exemplo. Se a pessoa telefonar para o Siate, vamos atender o mais rápido possível, avisa o relações públicas do corpo de bombeiros, tenente Ezequias de Paula Natal.
Pior que a falta de informações ou o repasse de dados errados, é outro problema enfrentado pelo Siate: o trote. Apesar de não serem frequentes, as brincadeiras ao telefone ainda irritam e causam transtornos. Geralmente é criança que passa o trote, observa o médico.
O identificador de chamadas instalado na central dos Bombeiros ajuda a localizar as pessoas que passam trotes, mas não é eficiente quando a ligação é feita de um telefone público. O médico lembra que uma vez uma pessoa ligou de madrugada avisando sobre um acidente, descreveu corretamente o estado da vítima. Deslocamos a ambulância e não tinha nada lá, explica. Na sua opinião, a atitude é uma falta de respeito e até de civismo.
O deslocamento, principalmente em vias movimentadas, era uma dificuldade enfrentada nos primeiros meses de funcionamento, mas que ultimamente não cria grandes transtornos, segundo o tenente Natal. Ele afirma que antes os motoristas não conheciam bem o serviço e não davam passagem para a ambulância do Siate, mesmo quando o veículo estava com a sirene ligada.
O tenente Natal acredita que a maioria dos motoristas hoje respeita o Siate e que, por isso, o tempo para se chegar ao local da ocorrência foi reduzido. Nos primeiros meses, esclarece, o tempo era de oito a nove minutos. Hoje, a média é de seis minutos. A população está mais esclarecida.
Caiu sozinho, de
bicicleta? Só
pode ter bebido
Nos horários de pico, o telefone 193 toca quase ininterruptamente. No entanto, muitas ligações são para pedir ajuda em situações que não são da competência do Siate. Após um ano de funcionamento do Siate local, há pessoas que ainda não sabem ao certo qual o objetivo do serviço.
Na noite de sexta-feira, após o jogo de futebol entre Brasil e Costa Rica, uma senhora liga para a central, preocupada com a mãe. Ela teria assistido ao jogo e ficado muda. Questionada sobre as condições da mãe, a pessoa responde que ela está normal, de olhos abertos. Mas ela não quer falar, insiste.
O médico do Siate, Mauro Roberto Basso, lembra que há alguns meses, uma pessoa ligou para o número 193 pedindo que o Siate socorresse um cavalo que caiu no buraco. Tivemos que explicar que não fazíamos esse tipo de atendimento, diz. Segundo ele, a maioria das pessoas entende e se conforma com os argumentos.
O nível de informação das pessoas melhorou, afirma Mauro Basso, mas muitos ainda insistem em ligar para o Siate querendo ajuda para levar doentes para o hospital, por exemplo. O serviço é solicitado ainda para transportar gestantes, atender vítimas de intoxicações e tentativas de suicídio.
As equipes do Siate se deparam também com muitos casos envolvendo pessoas alcoolizadas, principalmente nos finais de semana. O médico acredita que em 80% das ocorrências as pessoas apresentam hálito etílico - termo utilizado pelo Siate.
Felizmente, muitos casos não chegam a ser graves e os integrantes do Siate conseguem identificar as ocorrências que envolvem pessoas alcoolizadas em poucos minutos de conversa ao telefone. É o que aconteceu quando a central do Siate recebeu um telefonema à noite, às 23 horas, avisando que um senhor estava andando de bicicleta, sofreu uma queda e bateu a cabeça. A essa hora, caiu sozinho de bicicleta, só pode ter bebido, comenta um dos integrantes do Siate.
Uma ambulância é deslocada para o local do acidente e, poucos minutos depois, vem a confirmação via rádio: a vítima estava alcoolizada, mas não sofreu nada grave na queda. Apenas uma escoriação na orelha.
O acidentado queria
salvar seu moleque.
Era um cachorro
Apesar de conviver no dia-a-dia com ocorrências nada agradáveis, os socorristas do Siate tentam manter o bom-humor e a paciência. Sem muito esforço, eles contam histórias curiosas e engraçadas. O socorrista Antonio Carlos Pereira dos Santos lembra de um acidente de trânsito em que a vítima pediu para ajudar o seu moleque, que estava dentro do carro.
Fomos até o carro, ficamos procurando um garoto e nada, lembra. Mais tarde, os socorristas descobriram que o moleque era um cachorro que, na confusão, deve ter fugido.
Essas histórias, segundo os socorristas, servem para descontrair e fazer esquecer um pouco as ocorrências graves e trágicas. Antonio Carlos Santos lembra que um dos acidentes que mais chocou aconteceu há alguns meses, na PR-445 (rodovia Celso Garcia Cid), onde um bebê de quatro meses morreu. Criança é o que mais choca, revela.
Na opinião do socorrista João Eduardo Carvalho Rodrigues, para não se estressar, é preciso se desligar de tudo quando sai do trabalho. Se levar serviço para casa, complica, ressalta. Tem que curtir a família, o futebol, completa.
Justamente para ajudar a reduzir o stress, uma turma de socorristas passou há poucos meses por uma reciclagem feita pela psicóloga Devanira Domingues. Ela observa que os socorristas apresentavam vários pontos de stress, como insônia e reação, mesmo fora do trabalho. Muitos contaram que estavam em um restaurante e quando escutavam a cigarra (sirene), tinham a reação de prontidão, relata.
A psicóloga, que participou do curso de formação dos socorristas, explica que os eles até sabem lidar com o perigo e a morte. Muitos contaram que quando atendem vítimas com risco de morte, se sentem fortalecidos para socorrer e não deixam o emocional tomar conta, observa. No entanto, segundo ela, depois do atendimento, vem a descarga emocional e o stress.
Durante a reciclagem, a psicóloga disse que era importante reconhecer os limites de cada um. Eles precisam ter a humildade e a responsabilidade de perceber que estão no limite e acionar o colega para prestar atendimento em seu lugar, alega. Segundo ela, se os socorristas extrapolarem o limite, haverá perda na qualidade e na produção do trabalho.
Para combater o stress, Devanira Domingues sugere aos socorristas que pratiquem esportes, mesmo dentro do quartel, e tenham outras atividades de lazer, como a leitura. Ela defende ainda um acompanhamento psicológico mais frequente (uma vez por mês) para que os socorristas possam, pelo menos, discutir o stress e receber orientações de como lidar com as situações angustiantes.
Durante a reciclagem, a psicóloga diz ter notado que os socorristas gostam muito do que fazem. Eles têm um grande amor e uma dedicação tremenda. São incansáveis e a máquina propulsora deles é este amor, afirma. Eles são realmente anjos pelo que fazem, completa. Na sua opinião, o fato de a população reconhecer o trabalho do Siate serve como motivação aos socorristas para que superem o stress e o desgaste emocional e físico.





