Depois de aproveitar o feriado da Páscoa em família – exagerar na comida e grudar o corpão preguiçoso no sofá em frente à TV – Joaquinzão procurou manter a boa disposição na segunda-feira. Antes de seguir para o trabalho, como costume, decidiu conferir as notícias no radinho de pilha acomodado no armário do banheiro. Enquanto fazia a barba, o homem observava a gordura que se acumulava sobre o queixo. Preferia nem olhar para a barriga.
– Como começar bem a semana ouvindo tanta desgraça? - comentou em voz alta com a mulher que, no tanque da área de serviço, nem ouviu o questionamento do marido.
Acidente de trânsito, homicídios nos bairros, mães reclamando da falta de médico nos postos de saúde, o desempregado apelando por uma vaga, o idoso que não conseguia comprar o remédio...
Joaquinzão já havia pensado em nunca mais ouvir notícias para não alterar o humor logo cedo. Chegou a boicotar a compra de pilhas quando o radinho começou a ‘‘falar’’ baixinho. Mas na última partida de futebol do timão sucumbiu. Correu até a padaria da esquina em busca de pilhas novas. Encontrou os amigos tomando uma cerveja e só voltou para casa à noite. Levou a maior bronca da esposa, enfrentou a ressaca e tudo voltou ao normal no dia seguinte.
Mas aquela segunda-feira parecia diferente. O noticiarista anunciou o reajuste do salário mínimo e o aumento no preço do botijão de gás. A briga entre torcedores do São Paulo e do Corinthians, a intervenção da polícia para garantir a retirada do fígado de uma mulher que tinha autorizado a doação do órgão para transplante e o sequestrado por engano que passou mais de 10 horas de terror nas mãos dos criminosos.
– Que é isso meu Deus! O mundo só tem coisa ruim?
Dona Margarida, que já tinha colocado toda a roupa de molho, preocupada com demora do marido no banheiro, foi ver o que estava acontecendo.
Invocado com tudo o que acabara de ouvir pelo rádio e, tentando encontrar um sentido para aquele dia, Joaquinzão decidiu fazer algo diferente. Assim que terminou de fazer a barba, entrou nos potes de creme, depois rebocou os lábios com batom, pintou os olhos e completou a façanha colocando um vestido da mulher.
Dona Margarida quase entrou em pânico ao ver o marido. Não sabia se ria ou se chorava. Ficou parada, perplexa.
– Cansei de ser um homem normal. Chega dessa vida chata. Vou ser feliz. Virei gay - disse Joaquinzão.
Dona Margarida já estava pensando em internar o marido.
Joaquinzão caiu sobre cama e soltou uma tremenda gargalhada.
– Mulher, é 1º de abril. Decidi que hoje, ao menos hoje, vou viver de verdade. Tirou a maquiagem, ligou para o fábrica na zona norte e justificou a falta ao trabalho. Deu um abraço forte na esposa, que não entendeu nada. Foi até o quintal, deitou-se na grama. Passou o resto da manhã olhando os desenhos formados pelas nuvens no céu. Voltou a sentir o prazer que aquela brincadeira de criança lhe proporcionava. E foi feliz no 1º de abril. De verdade.

mockup