Silvana Leão
De Londrina
O brasileiro está mudando seu padrão alimentar. Para pior. No Dia Mundial da Alimentação – comemorado hoje –, a nutricionista Cristina Simões de Carvalho Tomasetti (foto), coordenadora do curso de nutrição da Universidade Norte do Paraná (Unopar), de Londrina, faz o alerta: estamos ingerindo uma quantidade cada vez maior de alimentos calóricos e ricos em gorduras, em detrimento de pratos saudáveis, como os preparados com ingredientes in natura. O resultado é o grande número de pessoas obesas e o aumento dos casos de arteriosclerose, hipertensão e anemia.
O fator mais preocupante, na opinião da professora, é o que diz respeito às crianças. Como consequência deste período de transição nutricional, elas estão apresentando problemas antes registrados apenas entre os adultos, como alta taxa de colesterol sanguíneo e hipertensão, decorrentes do excesso de peso. Além das calorias e das gorduras, Cristina Tomasetti considera o excesso de sódio (sal) presente nos embutidos e salgadinhos tipo chips, outro grande vilão desta história. Um vilão que ganha ainda mais importância quando une forças com o sedentarismo, comum principalmente nas crianças das grandes cidades.
Para a nutricionista, os hábitos alimentares estão cada vez mais fugindo do que seria o ideal. Ela acredita, por exemplo, que aproximadamente metade da população brasileira já não tenha mais como prato principal o arroz, feijão e bife. E vários são os fatores que têm levado a isso. A menor disponibilidade para a preparação dos alimentos e o grande número de refeições feitas fora de casa estão entre os principais.
Atenta às tendências de mercado, a indústria de alimentos abarrota as prateleiras dos supermercados de alimentos industrializados, como as misturas para preparação rápida de determinados pratos. Junto com a praticidade, porém, o consumidor leva para casa mais calorias e sódio. ‘‘Os próprios meios de comunicação não ajudam. Raramente vemos campanhas ou anúncios recomendando o consumo de produtos in natura.’’ Os chamados fast-foods e vendedores ambulantes que se proliferam pelas cidades também colaboram para que a situação se agrave, com seus lanches carregados de maionese, bacon e condimentos.
Outro problema da dieta moderna: a invasão dos produtos dietéticos, que passaram a ser consumidos indiscriminadamente por crianças e adultos, quando na verdade deveriam ser recomendados para casos específicos, como as vítimas de diabete. É tão grande a oferta destes produtos que alguns são ingeridos com a intenção de alcançar objetivos para os quais não foram preparados. O chocolate diet, por exemplo, só não tem o açúcar, mas é tão calórico – e portanto engorda – tanto quanto o chocolate normal.
A preocupação exagerada em seguir os padrões estéticos da atualidade também influencia a dieta alimentar. Só que em muitos casos esta influência não serve para estimular uma alimentação rica e balanceada, e sim para causar distúrbios como a bulimia e anorexia (doenças associadas a problemas psicológicos, em que a pessoa come demais e depois vomita ou não consegue mais comer), que têm sido comuns em adolescentes e jovens.
‘‘Vivemos hoje um paradoxo. Ao mesmo tempo em que há uma grande oferta de produtos ricos em calorias e gorduras, existe a grande preocupação com o peso’’, diz Cristina Tomasetti, que recomenda, como uma saída possível para este impasse, a procura pelo equilíbrio. ‘‘Não há necessidade de impedir que nossos filhos comam um lanche de vez em quando, mas isso não pode se tornar um hábito diário. Oferecer opções saudáveis, como frutas, verduras, leite e derivados é fundamental.’’
Em comemoração ao Dia Mundial da Alimentação a Secretaria Especial da Mulher de Londrina lança hoje a revista ‘‘Retratos – As Diversas Faces da Mulher na Produção Alimentar’’, mostrando o trabalho de mulheres que plantam, colhem, cozinham, comercializam e desenvolvem pesquisas com gêneros alimentícios na cidade.No Dia Mundial da Alimentação, o alerta: brasileiro abandona ‘‘arroz com feijão’’ e come cada vez mais ‘‘bobagens’’
Paulo WolfgangMAU HÁBITOPopulação consome, cada vez mais, alimentos calóricos: ideal são pratos feitos com ingredientes in naturaJosoé de CarvalhoAlimentação errada provoca colesterol alto e hipertensão até em crianças

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