Nunca fui tão humilhado, diz o sem-teto
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quarta-feira, 21 de maio de 1997
Luka Morais 
Uma comissão representando as 10 famílias despejadas das casas de fibrocimento do conjunto Ilda Mandarino (zona norte) se reuniu ontem de manhã com o secretário de Negócios Jurídicos, Eduardo Ferreira. O pleito deles é impossível, disse o secretário, após o encontro. A imprensa foi impedida de acompanhar a reunião. Os sem-teto querem retornar às casas de onde foram despejadas anteontem por determinação judicial.
Não temos para onde levar esse pessoal e não podemos permitir que voltem para as casas de fibrocimento, porque não somos detentores desses imóveis, disse Ferreira. O secretário disse que a Prefeitura colocou a Ação Social à disposição dos sem-teto. Mas casas nós não temos.
O secretário lembrou ainda a existência da lista com 30 mil inscritos para moradia popular, que deve ser respeitada.
Os sem-teto passaram a noite na garagem do prédio da Prefeitura. Foram levados à Praça dos Três Poderes na noite de anteontem, por caminhões da Construtura Grande Piso de Foz do Iguaçu, responsável pelo projeto das casas de fibrocimento.
As famílias receberam anteontem marmitex fornecidas por um vereador e, ontem, o café da manhã foi enviado. Uma mulher grávida e duas crianças pequenas dormiram na carroceria de um dos caminhões, onde estão os móveis dos despejados. Os demais se acomodaram nos colchões espalhados pelo piso da garagem.
Ao todo estão acampadas na Prefeitura 50 pessoas: 22 crianças e 28 adultos, que viviam em casas alugadas e que no último dia 13 decidiram ocupar as 10 casas de fibrocimento. Vamos ficar aqui até sermos recebidos pelo prefeito. Na hora de pedir voto ele nos procura, disse Adriana Antunes Moreira. Ela integra a comissão que representa os sem-teto.
Nunca fui tão humilhado na minha vida, comentou o pedreiro José Pedro, 70 anos, outro despejado. Criei 10 filhos trabalhando como pedreiro e não tenho onde morar. Outro pedreiro, Nelson Alves de Oliveira, que tem quatro filhos e cuja mulher está grávida de nove meses, revelou: Estou arrependido de ter invadido a casa. Não imaginava que ia passar por isso.
A preocupação maior do pedreiro era com os comentários de que o Juiz da Vara da Infância e Juventude poderia tomar providências em relação às crianças. Tenho capacidade para tratar dos filhos. Nelson Oliveira disse que, para não deixar mulher e filhos sozinhos, perdeu o dia de trabalho. As crianças maiores também não puderam ir para a escola. Tudo isso prejudica a gente.
O secretário de Negócios Jurídicos afirmou que a Prefeitura vai tomar as providências cabíveis para acabar com as dúvidas em relação à denúncia feita anteontem durante reunião na Câmara pelo advogado da construtora, Marco Antonio Campanelli. Segundo o advogado, o documento apresentado pela diretoria da Cohab, no qual a construtora afirma que as casas de fibrocimento seriam construídas sem qualquer custo à compannhia, conteria fraude na logomarca da Grande Piso e assinatura falsificada do proprietário, Roberto Sass. Estão nos acusando de usar um documento falso. Vamos resolver isso no foro criminal, disse Eduardo Ferreira.
O documento que conteria as fraudes é de 13 de fevereiro deste ano e contém ainda a assinatura do então presidente da Cohab, José Caetano Perri. Ele pediu demissão do cargo em março, logo que surgiram denúncias contra o projeto-piloto das casas de fibrocimento e a Câmara de Vereadores instituiu uma Comissão Especial de Inquérito para apurar o caso.


