Brasília - O potencial de 77.057 megawatts de energia elétrica da Amazônia (61% de toda a capacidade do País) deve ser totalmente aproveitado em benefício da economia, do desenvolvimento sustentável e da integração social das comunidades da região, defendeu o ministro de Assuntos Estratégicos e coordenador do Plano Amazônia Sustentável (PAS), Mangabeira Unger, em entrevista à reportagem.

Até 2011, o Brasil deverá licitar mais sete grandes hidrelétricas na região Norte, com capacidade de produção de 27 mil megawatts. Duas grandes obras para a construção de usinas no Rio Madeira já foram contratadas e devem entrar em operação a partir de 2012.

Agência Estado - Como o senhora avalia a possibilidade de construção e exploração de hidrelétricas na Amazônia?
Mangabeira Unger - Trata-se de uma questão pragmática. Não podemos abandonar o potencial hidrelétrico da Amazônia. O contrário levaria a um resultado perverso, inevitavelmente a uma maior dependência de energia térmica, muito mais prejudicial ao meio ambiente.

AE - Qual sua opinião sobre energia nuclear?
Unger - A hidreletricidade é a forma mais limpa de energia. Nós podemos contemplar a energia nuclear, que também pode ser energia limpa, como elemento subsidiário, estabilizador do nosso sistema energético. E, no futuro, dar lugar cada vez maior à energia baseada em biomassa. Mas a base de nosso sistema energético deve ser cada vez mais a hidreletricidade.

AE - O sr. recebeu do presidente Lula a incumbência de tocar o Plano Amazônia Sustentável. Como fazer desenvolvimento sustentável da Amazônia e preservar o ambiente?
Unger - Há um número pequeno de brasileiros que acredita que a Amazônia deve e pode ser mantida como um parque e há um número também pequeno de brasileiros que aceita entregar a Amazônia como zona livre para as formas predatórias da produção. A grande maioria do País não quer uma coisa nem outra. Insiste na tese do desenvolvimento sustentável. Nosso problema não é a divisão, é a confusão.


AE - E o que deve ser feito para acabar com a confusão?
Unger - São seis os eixos. Temos de organizar uma trajetória acelerada da posse insegura para a propriedade clara. Nesse clima de regularização fundiária, sem esperar pelo fim da obra da regularização, fazer um grande zoneamento ecológico-econômico que defina estratégias distintas para as diferentes partes da Amazônia. Em segundo lugar, é preciso dar eficácia às unidades de conservação, com meios e com gente, para fazer valer a lei. Em terceiro, dar alternativas para o produtor que trabalha na Amazônia sem floresta, organizar modelos econômicos que associem o Estado brasileiro aos produtores, sobretudo aos pequenos. Em quarto, para a Amazônia com floresta, construir vínculos entre a floresta e a indústria. Em quinto, construir uma logística multimodal para superar o isolamento da Amazônia. Por fim, capacitar as pessoas da região.

AE - Surgem, cada vez mais, opiniões de dirigentes de grandes potências - ou de jornais, que refletem a opinião pública delas - de que a Amazônia não é brasileira.
Unger- - O problema da preservação e da defesa estão entrelaçados na Amazônia. Não há preservação sem desenvolvimento. A Amazônia não é apenas uma coleção de árvores. Mais de 25 milhões de brasileiros moram lá. Se eles não tiverem oportunidades econômicas, serão inexoravelmente levados a uma ação econômica desordenada que produzirá o desmatamento. Por outro lado, também não há solução para a defesa da Amazônia sem projeto econômico, porque sem isso não há estruturas sociais produtivas e organizadas.

AE - O Brasil conseguirá então defender a Amazônia brasileira?
Unger - Quem cuida da Amazônia brasileira é o Brasil. A premissa de qualquer discussão nossa com o resto do mundo a respeito da Amazônia é a reafirmação inequívoca e incondicional de nossa soberania. Mas, para defender, precisamos encontrar o caminho do desenvolvimento sustentável. A verdade dura é que nunca fizemos o bastante, nem para preservar nem para desenvolver. Temos de perder o medo de falar em repressão. Atividade criminosa de desmatamento ilegítimo tem de ser reprimida por atos. Por exemplo: nós temos a proliferação das chamadas estradas endógenas, que são os caminhos que os madeireiros ilegais abrem na floresta. Esses caminhos, em geral, não são visíveis por satélite. Para responder a essa ameaça, nós precisamos ter gente na base, que faça cumprir a lei.

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