A rotina dos residentes começa às 6h30 da manhã. O grupo responsável pela cozinha levanta mais cedo para preparar o café e acordar os demais. Depois de uma hora de espiritualidade eles se alimentam e a partir das 8h30 participam das reuniões com as psicólogas e em seguida, laborterapia. Depois do almoço, uma hora de descanso até as atividades físicas. Café da tarde, mais laborterapia, banho e jantar complementam o dia, que termina às 22 horas, normalmente com um vídeo.
Segundo o professor de educação física Gilson Fernandes Broering, nem todos gostam de fazer exercícios, mas o futebol é a paixão da turma. Em dias mais quentes, eles podem tomar até três banhos de piscina, momento de treinar pólo aquático.
''Nós acabamos de reformar a quadra de vôlei e precisamos apenas comprar bolas para poder usá-la'', informa o professor. Segundo ele, um dos residentes até se propôs a criar uma sala de musculação na fazenda, trazendo os aparelhos da casa dele. ''Exercícios para perder gordura é o que eles mais querem.''
Alguns residentes ainda têm o condicionamento físico comprometido, por isso o professor adequa as atividades conforme a necessidade de cada adicto. Segundo Gilson, muitos estavam envolvidos com o esporte, mas o deixaram de lado em decorrência da droga.
É o caso de Lucas (nome fictício), de 28 anos. Goleiro num time de futebol do interior do Paraná, ele abandonou o sonho de seguir carreira para fumar maconha e crack. ''Quando tinha uns 16 anos meu cunhado me ofereceu maconha e por curiosidade experimentei. Foi quando encontrei pessoas que também usavam pelo caminho e acabei me aprofundando mais'', recorda.
Um dos piores momentos da vida do ex-goleiro foi logo após a morte do pai, aos 18 anos, quando ele começou a enganar a família para bancar o vício. ''Meu cunhado me apresentou o crack e eu comecei a furtar a minha própria família. Fui preso e passei sete meses na Febem, em Curitiba.''
Lucas relembra ter ficado longe das drogas por nove meses, período em que casou e mudou-se da casa da mãe. ''Com a minha mãe eu não tinha liberdade. Já a minha esposa não conhecia drogas e eu podia usar em casa que ela nem percebia. Gastava o salário com droga. Dos cinco anos em que fiquei casado, vivi bem apenas dois'', declara.
Quando a esposa engravidou, Lucas decidiu parar por conta própria, mas a falta de atenção da mulher, que só tinha tempo para cuidar do bebê, o deixou deprimido e ele buscou no vício a saída para os problemas. ''Vendi a tevê, o som, vendi a casa inteira para uma loja de móveis usados duas vezes'', confessa.
Depois de passar por cinco clínicas de reabilitação, sem sucesso, Lucas aposta na Libertad para ''reconstruir a família e viver à serviço de Deus''. ''Digo que só tenho duas semanas de vida e que vivo cada dia melhor que ontem. Dessa vez só vou sair quando estiver recuperado e quero ser uma nova pessoa para trabalhar na causa na qual fui salvo.''(M.G.)

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