Nunca aceitei essa palavra: sobrevida
Londrina - Marcos Antônio Yanes Cruz é paulistano apenas no RG. Nasceu no bairro do Tatuapé, na capital paulista, mas com três semanas de vida mudou-se para Londrina. Ele sente falta da Londrina que conheceu na infância. "É uma cidade que não existe mais. Do Guanabara pra frente era tudo sítio, tinha uns carneiros comendo na beira do pasto. Prefiro olhar e sentir Londrina daquele jeito", recordou.
O gosto pela terra herdou do avô. Quando desembarcou em Santos (SP), o patriarca espanhol iniciou uma plantação de banana. "Na verdade ele achava que estava indo para a Argentina e parou aqui. Creio que os hermanos selecionavam o nível para entrar lá", brincou.
Quando passou por cirurgias no coração, os médicos lhe garantiram que se ele seguisse as recomendações, teria uma boa sobrevida. "Nunca aceitei essa palavra: sobrevida. Ou você vive com qualidade ou não vive", defende. "Não me rendi às limitações da doença. Os médicos falavam de restrição de peso. Pra mim, restrição de peso é o que eu aguento levantar." O cigarro e o churrasquinho durante intervalos no serviço são prazeres da vida que ele não abre mão. "Não há divisão entre trabalho e diversão aqui. Nem a gente tem certeza de quando está trabalhando".
Além de Marcos, a equipe é formada pela mulher Adriana, responsável pelo financeiro, e pelo único funcionário, Felipe Carvalho, de 23 anos. Recentemente, o rapaz trocou a fabricação de joias para dar forma às embarcações. "Já falei pra ele que vai continuar mexendo com joias, só que maiores", compara Marcos, sorrindo.
A empresa funciona em uma casa de madeira. No ateliê, Marcos fabrica seis modelos padrões de canoas que, dependendo de mudança de itens, podem chegar a 30 configurações. A mais vendida é a Cherokee Eletric, com guarnição para o motor de popa. "Eu falo para não comprarem esta porque não presta, mas o povo compra", ironiza. A dose cavalar de sinceridade tem explicação: quem tem mais experiência prefere canoa com bordas mais baixas e com fundo abaulado como a Cheyenne. As com o fundo chapado, como a Cherokee, são indicadas para iniciantes, pois são mais difíceis de virar. "Eu não quero uma canoa que não vire, eu quero uma canoa que eu não deixe virar. Isto é o que preconiza a tradição indígena", explicou.
O prazo médio de envio das encomendas é de aproximadamente 15 dias. Os preços variam de R$ 2,5 mil a R$ 3 mil conforme o modelo. Uma de suas canoas foi exportada para Zurique, na Suíça. "Minha pista de teste é o Rio Tibagi. Pura pedra. Então elas aguentam porrada mesmo", garante.
Depois de quase duas horas de entrevista, quando a equipe de reportagem já entrava no carro para ir embora, Marcos fez a única recomendação: "Viu, se possível não dê muito destaque para a parte comercial. Já tenho muitas encomendas e não aguento mais trabalhar tanto", despediu-se. (C.F.)





