Pesquisa do Instituto do Coração (InCor), de São Paulo, apontou que a curetagem após aborto foi a cirurgia mais realizada no Sistema Único de Saúde (SUS) entre 1995 e 2007. Foram analisados mais de 32 milhões de procedimentos com base em dados do Ministério da Saúde. A curetagem ficou em primeiro lugar com 3,1 milhões de registros, 72% a mais que o segundo lugar, a correção de hérnia com 1,8 milhão procedimento. Em Londrina, levantamento feito a pedido da FOLHA em hospitais públicos mostrou outra realidade.
Em algumas unidades o procedimento é esporádico ou praticamente não existe por não possuírem estrutura. No Hospital Universitário (HU), em 2008 foram 107 curetagens após o aborto, o que fez o procedimento ocupar a 9 posição entre os mais realizados. O primeiro lugar ficou com a cesariana, com 599 procedimentos. Em 2009, o número subiu para 135 curetagens, num total de 9.414 procedimentos. Isto resultou na 8 posição, perdendo novamente para a cesária.
Informações da Diretoria de Auditoria, Controle e Avaliação (Daca), da prefeitura, mostram que o município pagou 79 Autorizações de Internação Hospitalar (AIH's) para internações para procedimentos de curetagem em 2008 e 129 em 2009. Até junho de 2010, 37 AIH's para curetagem foram pagas. Dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), informam que desde 2006 as curetagens vêm aumentando no Estado. Em 2008, foram 7,6 mil procedimentos e, em 2009, 8 mil.
Para Paulo Moreira, ginecologista do HU, os números de Londrina são subestimados. ''Ainda que tenhamos o número de curetagens, não sabemos quantas foram consequência de abortos espontâneos ou provocados. Além disso, muitas pacientes chegam em processo avançado de aborto provocado, em que não é necessário nem mesmo a curetagem.''
O ginecologista Evaldir Bordin Filho diz que os números alarmantes do InCor refletem, em primeiro lugar, os avanços no diagnóstico. ''Anos atrás, como não havia testes tão sensíveis, a mulher nem sabia que estava grávida. Pensavam que se tratava de um atraso menstrual, quando na verdade, o organismo estava expulsando o saco gestacional.'' Hoje, com poucas semanas as mulheres já sabem que estão grávidas. E, diante do resultado positivo, se sangram, procuram ajuda.
O médico diz acreditar que grande parte das curetagens em Londrina seja de decorrência espontânea. ''Pela minha experiência, acredito que 30% seja provocado, e o restante espontâneo.''
Curitiba
Em média, cinco procedimentos de curetagem são feitos por dia na Capital. No Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), são realizadas cerca de 28 por mês. Já o Hospital Evangélico recebe quatro pacientes todos os dias que sofreram abortos espontâneos ou não.
''Chegamos a fazer sete procedimentos em um único dia. Mas acredito que essa é uma média natural, já que uma em cada quatro mulheres sofre aborto espontâneo'', afirma o preceptor da residência em Obstetrícia do Evangélico, Marcelo Guimarães. ''Muitas vezes a paciente chega sangrando ao hospital. Algumas vezes é possível ver o comprimido ainda alojado (na vagina) durante o procedimento'', diz. A observação é mais difícil quando o comprimido é ingerido.
O médico relata casos ainda mais graves de mulheres que fazem o aborto em clínicas clandestinas. ''Acontece de a paciente chegar com perfuração uterina, hemorragia ou infecção. Sabemos da existência dessas clínicas, mas não conseguimos chegar a elas.'' (M.T. e M.R.M.)

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