Em menos de um mês duas pessoas morreram em Londrina vítimas de violência doméstica. Uma mulher grávida de seis meses foi assassinada pelo companheiro com um tiro e um homem foi morto por sua mulher com oito facadas. Todos os meses a Coordenadoria de Atendimento à Mulher (CAM) registra 50 novos casos de agressões físicas e emocionais promovidas em família.
A situação ganhou tamanha proporção que há 10 anos a Organização Mundial de Saúde (OMS) passou a considerar a violência doméstica um problema de saúde pública. Isto porque mais de 40% deste tipo de violência resulta em lesões corporais graves.
Os números que traduzem o problema são alarmantes. Desde 1993 o CAM registrou 5.700 casos e fez 25 mil atendimentos. Os dados registrados mostram que 70% das mulheres têm idades entre 29 e 45 anos; 70% dos agressores estão dentro de casa: 56% são maridos, 4% ex-namorados e 28% companheiros das agredidas.
Mas, o que mais impressiona são as vidas que estão por traz destes números, tanto dos agressores, quanto dos agredidos. Um ciclo de violência que só pode ser interrompido quando se busca ajuda.
Segundo a secretária da Mulher, Ligia Puppato, muitas vítimas da violência doméstica levam anos para quebrar este ciclo (ver quadro). Insegurança, medo, pressão familiar, constrangimento e auto-estima completamente arrasada são fatores que tornam o agredido refém do agressor. Ligia Puppato afirma que 12% das mulheres levam mais de 15 anos para denunciar seu agressor.''34% levam 1,6 ano; 27% levam de 2 a 5 anos; 25% levam de 6 a 14 anos'', afirma a secretária da Mulher.
No caso das mulheres agredidas, a violência é praticada em quantidade maior aos finais de semana. ''É quando o homem permanece mais tempo em casa e faz uso de bebida alcoólica'', diz Ligia Puppato.
Estudos de psicólogos e o próprio CAM entendem que para combater a violência doméstica é preciso tratar tanto agredido quanto agressor. Além do atendimento individual das mulheres, a partir deste ano o CAM criou grupos de vivência, através dos quais as atendidas trocam experiências.
''Nestes grupos as mulheres se reconhecem nos depoimentos de outras e percebem que não estão só'', afirma Ligia Puppato. ''O trabalho tem um ótimo resultado.'' O atendimento de agressores está dependendo da liberação de verba do Ministério da Justiça, para contratação de recursos humanos.
Funcionárias do CAM já fizeram estágio em São Gonçalo (RJ) num programa desta natureza. O projeto de Londrina foi encaminhado para o MJ há dois meses e a Secretaria da Mulher aguarda resposta.
Declarada pela OMS como um problema de saúde pública, a violência doméstica também tem motivado a criação de projetos em conjunto com a Secretaria Municipal de Saúde. O objetivo é sensibilizar profissionais da saúde e alertar para o fato de que o paciente atendido em hospitais e postos de saúde com sintomas de depressão, insônia, hipertensão, distúrbios gastrointestinais e outros, pode estar sofrendo violência emocional.
Ainda segundo dado da OMS, este tipo de agressão é tão grave quanto a física e tem um agravante: a dificuldade de ser identificada.

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